Roberto Gonçalves

"Tudo vale a pena quando a alma não é pequena"

Meu Diário
29/01/2014 08h26
Meu Diário

Meu diário

   O que menos interessa ao outro é a nossa biografia. Ela faz-se em cada termo, palavra afável ou inflexa que desvela o poder de ter sido, o de ter esculpido ao longo desta vida, um ápice de nada, num átimo de tempo - insisto: existo. Num paradoxo, quanto menos identificado estou, raiz ficanda no chão tiver, menos serei eu mesmo, mais serei o OUTRO. Este, sim, reflexo de mim mesmo, me aufere consciência.  Eu vejo, sinto, prescinto, respiro o outro no amplexo côncavo do espelho. Quantos eus perfilam no instante desta constatação? As palavras insinuam-se laureando a finitude do ser. Nelas mergulhado, ouso enfrentar o silêncio na aventura perspicaz: Você colocaria o seu sonho numa moldura, fosse ela um enfeite submerso em possibilidade de fraturas? Olhar é, em certa medida, transgredir, desnudar-se de tantos "eus" contigentes da existência. Sou a imanência do Inonimado, num tempo e espaço determinados em que o sujeito-objeto se fundem. A vida me é dada sempre no fio da navalha; no entrelaçar de acontecimentos nem sempre duradouros, nem sempre fugazes. Entretanto, resisto. Existo apesar de saber que minha biografia oriunda-se nos protótipos intra-uterinos de infindas gerações. Reflito: a sua idade é a idade de seus sofrimentos? Você é um homem, ou você é apenas uma reação impensada num lapso do ETERNO? O homem, é bom lembrá-lo, é capaz de ler a mensagem do mundo. Decifra-me se sou enigma de tantas imagens. E, o homem jamais é um anafalbeto. Ao invéz disto, é aquele que reflete ainda para pensar: Onde estamos? Quem somos? Para onde vamos? A sua terra, onde fica? É uma aldeia? Grande, pequena. A montanha faz sombra, ou o mar, constantemente vem acariciar os seus pés. O homem é sempre aquele que,  na multiplicidade de linguagens, pode ler e interpretar. No efêmero, pode ler o Permanente; no temporal, o Eterno; no mundo, Deus. Você tem uma casa de milhares de tijolos, ou é uma casa de poucos  "tijolos-cor-de-rosa, gerâneos na janela, pombas no telhado..." A ternura sobrevive escondida sob os ardis de seus pés? Eu possuo as estrelas, pois "ninguém antes de mim teve a idéia de as possuir". E sua vida gira em torno de quê, das moedas, ou em torno das estrelas? Você já teve um cão? Chorou quando ele morreu? "Eu me julgava rico de uma flor sem igual, e é apenas uma rosa comum que eu possuo". Mas a vida é assim mesmo: "Eu caço as galinhas e os homens me caçam. A gente só conhece bem as coisas que cativou. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal entendidos. Mas, a cada dia, te sentarás mais perto... Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz". Deitado na relva, ou em outro lugar qualquer, você também chora, ou isso é coisa de gente fraca? Ah, ia me esquecendo de dizer que estudei o homem na Filosofia, Psicologia, eu o estudei na Universidade, mas só o conheci mesmo no dia-a-dia da vida. E nos livros: Metafísica do Olhar, História de Pingo, Contrapasso Poético, Crônicas de Amor, Liras ao Vento, e neste Encontros, eu falo um pouco dele, o homem, e o ficciono para você Vem comigo pelas veredas insondáveis do pensar e passíveis do imaginar. Vem como a memória o chama: ela precisa de você. Tantas perguntas, quantas questões.

Roberto Gonçalves

Escritor

 

 


Publicado por Beto da Montanha em 29/01/2014 às 08h26
Copyright © 2014. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.

Site do Escritor criado por Recanto das Letras