Roberto Gonçalves (Beto da Montanha)

"Tudo vale a pena quando a alma não é pequena"

Textos



Ontologismo

   Ontologismo é a doutrina que afirma a evidência imediata da existência de Deus dizendo que temos Dele uma intuição direta nesta vida.
   O ontologismo (Nome este cogitado por Giberti, IX século) significa a posição filosófica que afirma o conhecimento imediato de Deus como essencial do intelecto humano, de tal forma que sem ele nenhuma coisa pode ser conhecida.
   Para o Ontologismo o conhecimento de Deus é orignal e originante, isto é, o primeiro de todos e a fonte dos demais conhecimentos.
     Não que o homem conhece primeiro a Deus em si mesmo e depois os seres em si mesmo, mas o ontologista afirma que tudo quanto o intelecto humano possa conhecer o conheceu em Deus. Por conseguinte, o intelecto humano tem visão imediata de Deus, e nossa intuição, essencial ao nosso espírito, a fonte de todos os conhecimentos.
    A essência divina seria como um enorme espelho estendido na nossa frente e nela se projetariam os seres das coisas as quais o nosso intelecto contemplando no espelho haveria de conhecer.
    Com isto, a existência de Deus é imediatamente evidente, e logicamente, sua demonstração é desnecessária.
    Qualquer outra demonstração da existência de Deus que se intentasse fazer seria mero recurso de apologética.

 
HISTÓRICO DO ONTOLOGISMO

   As doutrinas filosóficas , como os fatos históricos, não se produzem de repente, mas têm sua elaboração mais ou menos consciente em épocas anteriores.
 Uma época comunica às outras seus problemas e preocupações. O ontologismo, também tem sua elaboração histórica. Seu berço está na Grécia com

 
PLATÃO
   Lembrando-nos da situação do problema de Deus, vemos que Platão afirmava que a verdadeira ciência gira em torno da única realidade: as Ideias, e entre estas situava a ideia de Deus.
    Tudo neste mundo é uma imagem, uma sombra do mundo real e verdadeiro das ideias. Mas este conhecimento das ideias  — somente será alcançado pela intuição — noésis — de um modo perfeito.
    Nem a sensação, nem a opinião, embora auxiadas pela razão, nem o discurso demonstrativo podem bastar para dar-nos um conhecimento perfeito das ideias. Este conhecimento só nos dará a intuição.
     O esforço dialético, a preparação intelecual e mesmo moral são como uma disposição, preparação, a visão intuitiva do mundo das ideias.
  Aquele processo é como uma ascese preparatória e purificadora para capacitar as faculdades para a intuição radiante, processo imposto pela condição da vida presente.
  Pela via dialética  segundo o Amor  "é que somos conduzidos, diz, aquela beleza  que não nasce nem morre, que é em si e existe em si, da qual todas as belezas participam". Descendo com a luz desta suma Ideia é que se conhece como verdadeira a ciência, as coisas sensíveis e particulares que pela Ideia e na Ideia tem explicação e compreensão perfeita.
   Platão nega, pois o conhecimento abstrativo e induz a intuição  como forma própria do conhecimento desta suprema Ideia, Deus.
     Para este as Ideias estão colocadas no "nous", o espírito, como num "transmundo". Neste "transmundo" do "Nous", como no segundo andar , moram neste palácio magnífico o UM, a plenitude do Ser que é quase a divindade, o bem.
     Não são dois mundos este onde moram o Nous e o UM, mas como dois andares de um palácio, um dos quais aloja o Nous e as Ideias (entre estas a alma) e noutro o Um.
   No princípio a alma humana morava no Nous, como hospede com as Ideias e era feliz. No seu desejo de comunicar-se com a matéria, um dia veio a imergir num corpo humano. Tomando contato com a realidade triste deste Cosmos, e vendo que o céu azul que ela contemplava nem era céu azul, quis voltar para o Nous. Era tarde. Viu-se presa pela matéria. Desde então pelas suas atividades superiores continuou a morar no Nous como num cantinho, mas com a outra parte senti-se prisioneira neste mundo, suspirando por evadir-se e unir-se ao Um — que continua no transmundo — como um geometra invisível e distante, oculto, insensível aos sofrimentos da alma e dos homens.
     Para Plotino, o conhecimento é obra exclusiva da alma sob a eficácia das Ideias, convivas suas no "nous".
    O homem não sendo substancialmente corpo e alma, senão ama apenas, não conhece pelos sentidos. Por isto nega o conhecimento mediato e abstrativo. O modo de conhecer é por intuição imediata das Ideias, radicada substancialmente em Deus.
   Daí para Plotino, a contemplação mística e o extase, o contato, o contato intimo com a divindade, esta saída de si mesmo, é o método mais perfeito de conhecimento, mediante o qual o homem se converte no "UM".

 
Santo Agostinho

   Sua doutrina do conhecimento é uma união da tradição cristã com a neo-platonica.
      As ideias estão em Deus; o Verbo as possue e eis a parte do neoplatonismo. O Verbo ilumina a todo o homem que vem a este mundo. Eis a tradição cristã.
   Nesta conjunção de ideias radicadas no Verbo e fornecedida pela iluminação do Verbo ao homem, aparece sua doutrina famosa da iluminação do conhecimento de todas as verdades na Verdade Eterna.

 
São Boaventura
    São boaventura oferece uma solução intermediáriai — como uma ponte entre todas estas filosofias, fontes criadoras do Ontologismo e os antologistas posteriores propriamente ditos.
    São Boaventura não é ontologista, embora algumas partes isoladas de seu Itinerarium poderiam considerá-lo como tal.
 O Doutor Seráfico põe o conhecimento que denomina contuitus.
    
O conhecimento abstrativo seria aquele aquele por meio da causalidade — dos efeitos para a Causa  primeira, o intuitivo seria a visão diretas de Deus, negada a nós no estado itinerante.
     O conhecimento constitutivo  é a apreensão da Causa cuja intuição nos falta, no efeito percebido.
  Para São Boaventura o ponto de partida para o conhecimento sãos as coisas criadas — não poerém enquanto nelas percebemos a existência sua causa, mas quando nelas com um conhecimento constituivo — vemos que Deus existe.
     A intuição de Deus é reduzida aos simples efeito — é efetuada e temos o conhecimento intuitivo que chega até o conhecimento de Deus como uma visão.
     A posição intermediária de São Boaventura vai constituir-se numa das principais fontes do Ontologismo — embora não seja ele formalmente Ontologista.
  Ele também fala da necessidade da demonstração "a posteriori" da existência de Deus. A constituição não se dispensa  do labor demonstrativo da existência de Deus.

 
Guilherme de Occan

    É o autêntico causante do Ontologismo, o preparador do terreno para o Ontologismo.
     Criticando a doutrina tomista dos Universais conclue que só o existir é individual.
  Esta conclusão  implica toda a teoria noética que estabelecerá como única fonte de conhecimento, única forma de conhecimento passível  a intuição.
  Occan terá que modificar as soluções escolásticas, a problemática filosófica e a teologia e criar uma metafísica apenas provável.
     A razão — para Ocan — não pode nem negar a Deus nem demonstrá-Lo porque falta-nos  Sua intuição
     A demonstração de Deus é somente provável.
  Eis a três posições deixadas pelo coamismo — a via moderna da filosofia.
1) Nominalismo fideista — Deus só é conhecido pela Fé. 
2) Nominalismo empirista: Não temos de Deus conhecimento algum.
3)Nominalismo racionalista. Conhecemos Deus intuitivamente. 

 
Malebranche
 
    Malebranche colocou sua doutrina em Descartes e Santo Agostinho.
     Do primeiro ele observou as ideias claras e distintas, do Santo a eternidade e imutabilidde das mesmas. As ideias para Malebranche são pois claras e distintas eternas e imutáveis.
     Se para Descartes as ideias são subjetivas, intra mentatis, para Malebranche elas têm caráter extra-mentral, ontológico. São realidades existentes, porque correspondem a autênticas realidades existentes, porque correspondem a autênticas realidades dos existentes. Não que sejam substantivas e substantivantes, nem que se confundam com o objeto.
    Malebranche distingue a ideia e o ideatum.
    As ideias é o modêlo, o arquétipo, a maquete, o figurino representativo da natureza do ideatum, do objeto existente em si, e não uma representação ou figura, como fotografia o é da fotografia.
  Estas ideias correspondem a autênticas realidades existentes e configuradas à imagem e semelhança das ideias.
    Para ele:
1) As ideias não procedem do objeto — contra Aristóteles, pois isto estaria baseado no falso suposto de que os objetos transmitiriam ao sujeito conhecente suas espécies.
2) Não procedem também do sujeito cognocente porque sendo finito não pode produzir as ideias, universais, infinitas e necessárias. O sujeito não é a causa suficente podutora.
    Com estes argumentos rechassa o inatismo Descartes.
3) Não procedendo do objeto nem do sujeito, cognoscente, porque espírito infinito, Malebranche só poderia colocar as ideias em Deus. 
    Diz ele: Todas nossas ideias claras estão em Deus quanto à sua realidade inteligível. Nele as vemos e porque são eternas e imutáveis e necessárias só podem estar numa natureza eterna, imutável e necessária
  Só Deus possui perfeição não inferior à imutabilidade, necessidade e eternidade, infinitude das ideias  e portanto só Nele as podemos ver. Mas como estão em Deus: Vejamos:
   Para Malebranche, a atividade cognoscitiva do homem exige como necessária a presença imediata e ativa, frente ao nosso espírito, da realidade conhecida, isto é, do objeto, e este, exercendo uma atividade ou estimulação sobre o intelecto.
   Isto porque para Malebranche o intelecto humano é, no conhecimento, totalmente passívo — e se o objeto não atuar sobre o intelecto este nunca atuará sobre sobre o objeto e portanto nunca poderia conhecê-lo.
  Mas como isto somente permitiria o conhecimento de realidades espirituais, porque as matérias nunca podem estar imediatamente presentes ou unidas ao nosso espírito, nem exercer influxo sobre ele, Malebranche diz que estas realidades materiais podem ser substituidas por Ideias — nem corpóreas nem materiais — que as representem, e assim conhecendo as Ideias, chegar-se-há ao conhecimento das realidades materiais.
    Portanto, o conhecimento que o homem pode ter deve ser um conhecimento por ideias.
   Ora, Deus, não podendo estar representado por ideia alguma, em ideia alguma, objeto de nosso conhecimento, porque não pode estar compreendido por ideia alguma, o homem não pode ter conhecimento de Deus, não tendo sido produzido, não tendo modelo, ideatum, não pode o homem ter conhecimento Dele. Tem intuição.

 
INTUIÇÃO DE DEUS

    Sendo, para Malebranche, as ideias eternasimutáveis, e necessárias:
a) Não podem proceder dos objetos, concretos, sensíveis, singulares, contingente.
b) Não podem proceder do nosso espírito, porque sendo finito, e as ideias sendo universais e necessárias, não pode ser causa eficiente ou produtora delas.
c) Não resta senão Deus para sua produção?, mas tão pouco são produzidas por Deus, porque são os nossos pensamentos de Deus, com os quais é o modêlo e arquétipo que cria as coisas. 
   Juntando a estas conclusões a doutrina Malebranchiana da causalidade ocasional das coisas — estas são ocasiões da Causa Deus — concluiremos no Ontologismo.
   Com efeito:
1) Se nada pode ser causa eficiente ou produtora das coisas, senão Deus.
2) Se as ideias influem  eficientemente sem nosso intelecto com influxo indispensável, para que se produza o conhecimento, concluiremos que as ideias não são distintas de Deus, mas são seus pensamentos.
   Mas, como não conhecemos senão por ideias (exceto o conhecimento que temos de Deus) resulta conhecermos tudo em Deus, em seus pensamentos.
   Ora, conhecer os pensamentos de Deus é conhecer o próprio Deus, porque sendo Ele uma só substância, conhecendo as ideias, conhecemo-Lo a Ele, positiva e diretamente.
   Aliás, como é um fato o conhecermos a Deus e não O podemos conhecer por ideias, porque não há ideias representativa Dele, é preciso que o conheçamos em Si mesmo e por Si mesmo, de tal forma que o primeiro que conhecemos é Deus e Nele conhecemos todas as coisas. Portanto, o conhecimento de Deus é intuitivo.
 
Roberto Gonçalves
Escritor

Bibliografia:
- Claudio, Henrique de Lima Vaz, s.j - Livraria duas Cidades, S.Paulo, 1968.
- Cantoni, Remo, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1968.
 
 
 
    
      
Beto da Montanha
Enviado por Beto da Montanha em 30/06/2016
Alterado em 05/07/2016
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