Roberto Gonçalves

"Tudo vale a pena quando a alma não é pequena"

Textos


Um olhar sobre o matrimônio
 (Palestra proferida na Igreja São Bento, Belo Horizonte-MG, em 10 de abril                                                       de 2004)
                                    
 
 
 
   Inicialmente agradeço a oportunidade que nos propicia o Padre João Emílio de falar, como paroquianos leigos, sobre os sacramentos. Tive disponibilidade, repassei mentalmente cada um deles: Batismo, Reconciliação, Crisma, Matrimônio, Ordem Sacerdotal e Unção dos Enfermos.
    Ofereci-me para compartilhar com vocês sobre o Sacramento do Matrimônio, pois optei por ele e dele recebi 3 frutos sazonados, os nossos filhos. Lembro-me de que aqui já falei, em outra época, sobre As Virtudes de São José, cuja dor angustiosa de Maria aos pés de Cristo sobrevive ao tempo. Este constitui mais um estímulo ou inspiração para aceitar o desafio de agora.
  O Matrimônio, constituído pelas Clãs primitivas, é uma cerimônia ritual que, com o tempo tornou-se cultual em diversos povos, nossos ancestrais.
    Na tradição judaico-cristã-islâmica recebe importância impar, ocasião de festejos, comércio e consolidação de laços familiares e de amizade. Na Bíblia não há a palavra, o termo Sacramento, mas a realidade Sacramental estava sempre presente. Exemplos: a Arca da Aliança era o sinal da Presença de Deus, isto é, Símbolo no Antigo Testamento. 
   ─“Quem fez isto aos pequeninos, a mim que o fez” (Marcos 9:36 a 42).
    ─“Onde dois ou três estiverem reunidos, eu aí estou presente”. (Mt 18.20)
    Cristo se torna presente neste contexto. O sacramento exige uma reflexão mais sistemática, mais organizada, tal como ocorre no período da ESCOLÁSTICA (período medieval), onde os sacramentos são elaborados e definidos com clareza.
  Os escolásticos fizeram o SEPTENÁRIO, isto é, uma consolidação dos sacramentos, determinaram-se seus rituais e após, suas regras ou orientações (as rubricas eclesiais). Aqui o ponto: aos teólogos coube a responsabilidade de pesquisar e orientar a todos acerca dos fundamentos jurídicos dos sacramentos. Deu-se no Concílio de TRENTO o cumprimento das regras litúrgicas que, depois, no VATICANO II, Documento Sacrossanto Concilium (S.C.), resgatou-se a unidade entre Liturgia e Sacramento.
     Supõe-se três elementos para a vivência dos Sacramentos:
     1.adesão a Cristo.
   2.conhecimento da proposta de Jesus Cristo para vivenciá-la.    
      3.testemunho, isto é, fazer-se sinal em cada ato da vida,   ser cristão em  verdade com ações testemunhais.
   Não só falar de, mas, ser e demonstrar sempre em toda situação de vida, nossa adesão a Cristo, em nosso caso, na condição do Matrimônio. Ao viver assim, há o resgate da alegria, do júbilo da celebração. A Liturgia Sacramental faz-se “Kairológica”, isto é, momento decisivo celebrado à luz da memória do Senhor Deus-Jesus Cristo.
  O que é o matrimônio senão um momento valorizado da experiência de Deus, ou seja, vida a dois, aceitar o desafio de duas vidas, do homem e da mulher, a percorrer o mesmo caminho. Existe uma música da Padre Zezinho e Cantores de Deus que se refere a este vivenciar Divino. (Cantiga de Matrimônio)
    Em resumo: na Liturgia, o Matrimônio é um ato valorizado no tempo Kairológico (de Deus) e não no tempo cronológico (humano); e reafirmado pelo Concílio Vaticano II. A práxis é a teoria junto à prática.
    Sabemos pela Bíblia que nosso senhor Jesus Cristo participou ativamente das manifestações culturais de seu tempo, tendo inclusive realizado o primeiro sinal da Manifestação da Presença de Deus na comunidade joanina (João 2,1-11). A união santa e indissolúvel acontece através do consentimento livre dos contraentes perante Deus e a Igreja. O ministro do Sacramento do Matrimônio são os próprios cônjuges.
     Os fins: amor, procriação, educação dos filhos.
    Propriedades: unidade e a indissolubilidade; isto é, deve ser de um com uma e para sempre.
     
         Oh! noite que me guiaste,
         Oh! noite mais amável que a alvorada:
         Oh! noite que juntaste
         Amado com Amada,
        Amada já no Amado transformada!” (Poesias de  São João da Cruz, Obras Completas, Vozes, 2000)
 
    Entretanto, o matrimônio ultrapassa toda e qualquer definição teórica. É de sua natureza acontecer no tempo e no espaço, à luz do dia e nas noites, muitas vezes longas. Na sua vigília, o fiat matrimonial tece a sua teia de surpresas.
   Cresce a noite, e a vigília cada vez mais acesa; sem dormir sonha (Augusto dos Anjos)
    O teólogo Leonardo Boff adverte que em todo sacramento há, inevitavelmente, um momento sim-bólico que  une e evoca Deus e Jesus Cristo e pode haver também um momento dia-bólico que afasta e separa de Deus e de Jesus Cristo. O sacramento pode ser deturpado em sacramentalismo. Celebra-se o sacramento mas sem a conversão. Colocam-se sinais figurativos da presença do Senhor, mas sem a preocupação do coração. Os sacramentos são usados para exprimir a adesão a uma fé. Entretanto esta fé é sem conseqüência. O cristianismo da burguesia apresenta-se, não raro, como puramente sacramentalista. É uma fé de uma hora por semana, por ocasião da missa dominical ou de alguns momentos importantes da vida, como por exemplo de um batizado, de algum casamento, ou de um sepultamento. Fazem-se ritos, mas não se vive uma fé viva. Na vida concreta vivem-se valores opostos à fé: prossegue a exploração do homem pelo homem: campeia ganância de acumular mais e mais. No universo sacramental verificou-se uma infiltração do espírito capitalista. Há pessoas que aproveitam toda e qualquer ocasião para receber o sacramento, porque quer acumular graças sobre graças. A preocupação não é um encontro com o Senhor. Mas o acumular em termos coisísticos, como se a graça divina fora uma coisa que pudesse ser acumulada e colecionada. O consumismo sacramental, sem a reta compreensão da estrutura dialogal do sacramento que supõe sempre a conversão e a fé, invadiu desastrosamente a mentalidade do catolicismo popular. (Boff, Leonardo. Os Sacramentos da Vida e a Vida dos Sacramentos, Vozes, 1975)
    Vamos nos ater aos aspectos mais evidentes do matrimônio, relegando outros de natureza jurídica para ocasião oportuna. O tema matrimônio chega a ser folclórico para os menos conscientes, provocando risos e comentários banais, ironia, zombaria, sarcasmo, imprecações, constituem o repertório habitual de quem fala ou escreve levianamente sobre o matrimônio.
    Em um livro de máximas e aforismos, encontro, a respeito da “santidade” e da “beleza” do matrimônio estes terrificantes pensamentos:
    “Como! Ele se casou! E pensar que o deixei gozando de tão boa saúde!” (Antífanes)
   “O estado matrimonial chama-se santo precisamente porque conta tantos mártires” (Romain Rolland)
      “Têm razão os que chamam à esposa “minha metade”, porque um homem casado não é mais do que metade de um homem”. (Romain Rolland)
   “Todos devem casar-se; não é lícito fugir egoisticamente a uma calamidade geral” (Sphir)
   “Em nossas regiões monogâmicas casar-se significa cortar pela metade os direitos e dobrar os deveres”. (Schopenhauer)
  “Estudam-se três semanas, amam-se três meses, brigam três anos, toleram-se trinta anos; e os filhos recomeçam”. (Taine)
  Como eternos levianos, há homens que elaboram juízos venenosos e corrosivos sobre o Matrimônio que não convém levar a sério. Como todas as coisas da vida, também o matrimônio tem suas sombras e suas luzes, seu mal e seu bem. O homem casado, que encontrando o solteiro suspira e bate-lhe “amigavelmente” nas costas dizendo:
     “Você é que é feliz, que está solteiro!” na verdade não inveja o solteiro nem trocaria sua condição com a dele.
   Depois de “ilustres” e maliciosas opiniões, e para maior compreensão de nosso olhar sobre o matrimônio, gostaria de estabelecer que, quando Cristo, no Evangelho, diz que ninguém é bom senão Deus, Ele quis significar, entre outras coisas, que somente um ser infinito e um espírito infinitamente santo é capaz de abarcar inteiramente um valor. E nós homens só o conseguimos fragmentariamente, sempre superficialmente, sempre de um lado só. Ainda assim, o homem é capaz de pensar de modo universal, pela faculdade da abstração, enquanto que os outros animais sempre pensam em coisas particulares e concretas.
   O matrimônio supõe a união de dois indivíduos, de duas personalidades diferentes, muitas vezes antagônicas, de duas psicologias, de duas vontades com suas “verdades”, com os seus medos, desejos conscientes e inconscientes, sonhos e valores, neuroses e vícios, oriundos de um núcleo familiar, religioso e social desconhecidos e sedimentados em estruturas humanas e pessoais próprias. O matrimônio é tocar piano a quatro mãos, é conta-conjunta, é cama partilhada, é escrever crônicas com visões pessoais da vida e do mundo.
   A experiência e a ciência nos mostram que, o desenvolvimento do matrimônio é lento e progressivo. Quando um dos cônjuges “eu não gosto do vocábulo cônjuge” cresce, e o outro não, inicia-se o fim do sonho, o fim do matrimônio – que não aconteceu, floresceu o arroz não cozido que se põe na mesa conjugal. E, quando ele não acontece, floresce, os predadores do matrimônio aparecem, e o matrimônio fenece, desanda, recua, retrocede, encolhe, não encontra a sua luz. Os psicólogos, então, agradecem – terapias de vários matizes se oferecem, farmácias vendem mais calmantes, antidepressivos, as velas se acendem, e, muitas vezes, o padre se aborrece, enquanto cartomantes e afins, mal têm tempo de atender à numerosa fila de consulentes. O judiciário se entulha de processos consensuais e litigiosos, para atender à demanda de “felizes” advogados das Varas de Família, porque, não se houve mais o arrulhar dos pombinhos, existem os desentendimentos e as brigas. E os filhos? Ah, os filhos padecem...
        Entretanto, o matrimônio não é, não deve ser o “sepulcro do amor”; ao contrário, é a banca examinadora. Um amor que naufraga na realidade prosaica da vida cotidiana, é um sentimento imaturo e abstrato, inflado por um romantismo vazio. Entre presente e futuro, realidade e esperança, há uma larga margem que, somente a espera paciente e racional pode superar. Pouco ou nada nos é dado, e o possível se faz real somente na ação e no trabalho que exigem a paciência e o concurso lento do tempo. A poesia das coisas e o sentimento que existe no Fiat matrimonial, difere da poeticidade e do sentimentalismo.
     O matrimônio se vê, também, ameaçado por vários tipos de predadores. Alguns são mais perigosos e letais, como é o caso dos répteis que transmitem, numa só mordida, a neurotoxina, que paralisa o coração e os pulmões, e a hemotoxina, que destrói os vasos sanguíneos do casal.
       Cada estado ou condição da vida arrasta o homem a uma série de contrariedades. Dificuldades, complicações, perigos, desilusões, quedas, desorientações, não são fenômenos excepcionais da vida humana. Se não existissem essas resistências a nossos propósitos, não existiriam nem mesmo as satisfações, os sucessos e a alegria. O homem se tornaria um animal preguiçoso e estúpido, incapaz de sofrer e gozar. O mundo cria o reino do tédio e do torpor. Por que o matrimônio deveria subtrair-se às leis deste nosso mundo imperfeito?
     O prazer de lamentar-se é próprio dos humanos. Deplorar seu estado, considerá-lo indigno dos méritos possuídos, é comum à maior parte dos homens. Todos gostam de sentir-se credores perpétuos O desabafo é também uma boa terapia psíquica para eliminar os mal-humores e melhorar a opinião que temos, e que os outros têm de nós mesmos. O casado faz um triste inventário da vida conjugal, relacionando seus inconvenientes e problemas. Parece que seu dia é apenas uma triste seqüência de coisas aborrecidas e preocupantes: as crianças adoecem, a mulher gasta demais com futilidades, o apartamento se torna pequenino para a família que cresce, a bela liberdade de outros tempos desaparece, as contas a pagar se multiplicam, o casal não tem a mesma opinião sobre a educação dos filhos, sobre a política, sobre os amigos, enfim, sobre a vida. Não se tem mais a liberdade de outrora, quando se era livre e só, disponível para qualquer aventura e não se era atormentado por tantos problemas. Esquece-se, porém de que a liberdade e ócio vinham acompanhados de vazio e desolação, que aquela liberdade e solidão tinham, freqüentemente, como recompensa a melancolia, que as aventuras eram belas no começo, e, estupidamente, vulgares na conclusão.
    O ser humano, destinado ao convívio, parece ter desaprendido os caminhos do amor, da intimidade, do relacionamento profundo que enriquece ao invés de desgastar. A carência afetiva é problema tão sério que pode provocar, nos bebês, o que a medicina chama de síndrome da privação materna: a criança, privada de afeto, apresenta comportamento apático, desligado, podendo chegar à rejeição alimentar e à morte.
     O tratamento básico, nestes casos, seria a administração de atenção, de carinho, de consideração, enfim, de amor.
     Na vida conjugal, o amor permanece meio empoeirado pelo hábito, pelas dificuldades de cada um em manifestá-lo com mais clareza e freqüência. As manifestações de amor não precisam ser cinematográficas, para quem pode, é claro, cruzeiro pelo mundo, jóias, ou a demonstração febril e isolada na reconciliação após alguma briga.
     Entretanto, as manifestações de afeto poderão ser cotidianas e simples; quando somadas, são invencíveis.
       Pequenos gestos, palavras, atenções sobre roupa, alimento, o penteado da esposa. Um simples olhar, um sorriso, um gesto, transmitem muito do amor que sentimos e que tememos demonstrar.
    Na maioria das vezes, o que sabemos fazer com mais freqüência é “elogiar” defeitos e minimizar o que é bom.
        Querida, este bife está uma sola! Ou então:
        Até que enfim, você resolveu pintar esta sala horrorosa.
       Os homens, na maioria das vezes, estão condicionados a não demonstrar afeto a não ser em circunstâncias especiais “emotividade é coisa de mulher”! Então, ao invés de beijarem a esposa, um beliscão doído em suas bochechas ou em outro lugar é mais apropriado. Foi afeto, é verdade, porém, agressivo, pueril. 
    Manifestar afeto é, também, saber conversar, interessar-se pelas atividades do outro; principalmente, saber ouvir.
       Saberemos realmente escutar o outro?
    Saber escutar é mais que simplesmente ouvir e conseguir reproduzir as palavras ditas; é conseguir entender sentimentos que se manifestam nos gestos, na expressão do olhar, na entonação da voz, enfim, no conjunto de expressões não-verbais que traduzem muito mais o que vem do outro. Escutar é dedicar atenção, é esforço de interpretação, é tentar captar mensagens por vezes tímidas de comunicação no nível mais profundo.
 
       “Ora, direis, ouvir estrelas!
        E eu vos direi: Amai para entendê-las!
        Pois só quem ama pode ter ouvido
        Capaz de ouvir e de entender estrelas”. (Olavo Bilac)
 
        Outra forma de matrimônio, vivido pelo Sacerdote e a Igreja de Cristo, se torna fecundo. Padre João, em tão pouco tempo como pároco e líder espiritual da Paróquia São Bento, plantou sementes, iluminou caminhos, forjou corações com o fole de sua palavra. O Centro de Pastoral Padre João Emílio de Souza, aqui está, e ultrapassará o instante fugidio de cada tijolo assentado, de camarinhas de suor, como sonho realizado.
     A experiência do sagrado “onde o homem procura ser homem é lá que encontra o Deus dos homens”, (Loew, Jacques, in: Meu Deus em quem confio, ed. Paulinas, 1986) o tijolo assentado sustentará o anseio de São Bento: “Reza e Trabalha”, o senhor o espera em sua vinha.
       Num excelente texto, com o título: Família, drogas e mídia, a psicanalista Inês Lemos, com a lucidez costumeira, diz:
       “Os jovens de hoje vivem a perversão do mundo do dinheiro, quando a maioria louva a aparência, o carro e o salário. Vivem a vida em pedaços. Entram na faculdade mais pensando em ficar ricos do que em estudar. Na cultura do fragmento, toda grande idéia acaba em cifras. Transcender o feitichismo da mercadoria, isso é tarefa para poucos A maioria se atola no falso erotismo do mundo pós-industrial. A sociedade que joga jovens na prisão por obedecerem a seus mandamentos, é, no mínimo, covarde e assassina. Criminoso é fazer os jovens acreditarem que utopia pós-moderna é o imaginário da revista Caras. A cidade de Mário Quintana em A rua dos cataventos não existe nem mais na memória dos jovens cibernéticos. Quintana faz poesia com sua ruazinha sossegada. Ruas que abrigavam serenatas e canções de outrora, que zelavam pelos que dormiam o sono puro: “Dorme... Não há ladrões, eu te asseguro. Sabe-se que os piores ladrões não circulam pelas ruas, mas pelo poder.
       A casa é onde as pessoas crescem, choram e comem juntas o pão de cada dia. Casa, pão, pai. Bachelard nos fala do sentido da casa, a concha onde tudo se inicia e encontramos o germe da felicidade. Nossa salvação está em nossa própria cabana. Seja castelo ou choupana, o que ela abriga são fantasias que nos fundam, nos enraízam. Mas, para isso, tem que haver casa, carinho e gente para dividir o pão. Sem morada que abriga lembranças, vivemos uma infância móvel, sem memória e sem fixações, seja de felicidade, seja de tristeza. Importa que revivemos as lembranças, a memória e as histórias que nos protejam das tentações mundanas, tão humanas...
    Os acontecimentos que nos deixam marcas profundas, sulcos caudalosos, as boas lembranças são as que guardamos fechadas em caixas e corações.
   A crença na vida breve é filha do entretenimento. A arte é longa, eterna. O gozo ansioso pode ser intenso, mas acaba logo e deixa um gosto de morte na alma. A redenção dos jovens deve estar na reinvenção de um ideal de vida mais calma e poética e, por quê não dize-lo, profética.
   A saída pode estar na família, mais presença e menos presentes. Felicidade é assumir nossas verdades e também nosso lado trágico, feio.
       Ao abandonar o imaginário dos ricos e famosos, hibernamos em nossa cabana e descobrimos o sentido de nossa vida, que brota dos cantos das casas que compõem o poema familiar. É com ele que tecemos histórias e profissões. A vida forjada longe de nossa metafísica é ficção. A felicidade é cozinhada lentamente no fogão da solidão. E na panela das paixões, refogamos esperanças e sonhos”. (Estado de Minas, Pensar, 2006)
       Finalmente, a carta de um filho a todos os pais do mundo, por Marita Abraham:
       Não me dêem tudo o que peço-lhes, às vezes só peço para ver o quanto consigo. Não gritem comigo, os respeito o menos quando gritam comigo e me  ensinam a gritar também, e eu não quero gritar.
     Não me dêem sempre ordens, se às vezes me pedissem as coisas, eu as faria mais rápido e com mais gosto. Cumpram suas promessas, boas ou más. Se me prometem um prêmio, quero recebe-lo e também se é um castigo. Não me comparem com ninguém (especialmente com meu irmão) se me apresentam como melhor que os demais, alguém vai sofrer e, se pior, serei eu quem sofrerei. 
       Não mudem de opinião tão rápido sobre o que devo fazer, decidam-se e mantenham essa decisão. Deixem-me valer por mim mesmo. Se fazem tudo por mim, nunca poderei aprender. Corrijam-me com ternura.
       Não digam mentiras na minha frente, nem me peçam que as diga por vocês, mesmo que seja para tira-los de um apuro Isto é mau. Faz com que me sintam mal e perco a fé no que vocês dizem. 
    Quando faço alguma coisa errada não me exijam que lhes peça “por que o fiz”, às vezes nem mesmo eu sei. Se alguma vez se equivocarem em algo, admitam-no, assim se fortalece a opinião que tenho de vocês e me ensinarão a admitir meus próprios equívocos. Tratem-me com a mesma amabilidade e cordialidade com que vejo que tratam a seus amigos, ser família não significa que não possamos também ser amigos.
       Não me peçam que faça uma coisa que vocês não a fazem, eu aprenderei a fazer tudo o que vocês fazem, embora não me digam, mas dificilmente, farei o que dizem e não fazem.
     Quando eu lhes contar algum problema meu, embora lhes pareça muito pequeno, não me digam “não temos tempo agora para essas bobagens” tratem de me compreender, necessito de que me ajudem, necessito de vocês.
     Para mim, é muito necessário que vocês me amem e o digam, o que eu mais gosto é escutá-los dizendo: “Te amamos”.
    Abracem-se, preciso senti-los próximos de mim. Que vocês não se esqueçam que eu sou eu, nem mais nem menos que um filho.
        Termino, com o Padre Zezinho, em belo poema:
 
                  Teus pais serão meus pais
                  Meus pais serão teus pai
                  
Teu lar será meu lar
                 
Teus sonhos hão de ser também os meus
                  Teus ais serão meus ais
                  E cada dia mais 
                  Na dor e na alegria
 
        Seremos este par apaixonado
         Se foi amor o que nos fez olhar
          na mesma direção

      Se foi amor o que nos fez
     tomar a mesma decisão

          Se foi amor, que fale o coração
       E nunca mais se canse de
        falar te amo e te amarei

                  Te amo e te amarei Te amo e te amarei!

 
                              Roberto Gonçalves
                                                 Escritor

 
 
                                    

 
RG
Enviado por RG em 02/09/2012
Alterado em 23/09/2016
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