Roberto Gonçalves

"Tudo vale a pena quando a alma não é pequena"

Textos


As Virtudes de São José

(Palestra proferida na Igreja São Bento em 19.3.2003, Belo Horizonte – MG)

 
     Quando a amiga Natália me deu a alegria do convite de falar sobre as virtudes de São José, a minha concordância foi imediata. Acabara de assistir à santa missa da quarta-feira de cinzas, e ainda podia sentir em meus lábios e no meu coração a presença viva de Deus. Confessara e comungara, naquela ocasião, atendendo ao preceito da Sociedade de São Vicente de Paulo, que exige que a admissão de novo confrade seja precedida de confissão e comunhão.
   Com a palavra então empenhada, comecei a pensar na minha ousadia – outros seriam mais competentes. O que sei eu sobre São José? Lembrei-me da penitência que acabara de receber do sacerdote, instantes antes, na confissão: “Visitar uma casa de idosos”. Antes, muito antes das coisas acontecerem, vão se definindo os caminhos que iremos percorrer e as responsabilidades que vamos assumindo na vida. Deus vai dispondo de nossas possibilidades e intenções, e ficamos maravilhados, às vezes, como Ele não nos esquece, como Ele nos ama, verdadeiramente. Pela primeira vez na vida, estava eu experimentando o sentimento de me haver antecipado à penitência, de tê-la cumprido antes mesmo de recebê-la. Faço trabalho voluntário no “Lar dos Idosos São José”, da Associação de Promoção Humana Divina Providência, Olhos d’Água, aqui em Belo Horizonte. O nome e a imagem de São José encontram-se presentes naquela casa, levando esperança aos idosos, confortando-os em suas enfermidades e aflições. São José foi se instalando, mansamente, em cada um de nós, e nos sentimos ligados a ele, e àqueles que ali estão sob a proteção de seu nome e o manto de sua compaixão. O convite da Natália, assinado por São José, caiu como uma bomba de amor. E aqui estou eu, para refletir, com simplicidade, sobre o esposo de Maria e pai de Jesus.
       As minhas pernas estariam tremendo neste instante, se estivesse a falar sobre um grande imperador, mas podem ter certeza, entretanto, que o meu coração bate descompassado ao pretender enumerar as excelsas virtudes do Pai de Jesus, Esposo de Maria, Chefe da Sagrada Família, Protetor Universal da Igreja, Consolo dos Enfermos, enfim, do fiel, paciente e bondoso São José.
     O homem, criatura intelectiva, se compõe de corpo e espírito; acima dele certamente está Deus, que não tem corpo (pois todo corpo significa limitação, imperfeição), mas é Espírito infinitamente perfeito. “O homem é a perfeição do universo; o espírito é a perfeição do homem; o amor, a perfeição do espírito; e a caridade, a perfeição do amor. É por isto que o amor de Deus é o fim, a perfeição e a excelência do universo”. (Tratado do Amor de Deus), Vozes, pág. 493).
   Este pequeno preâmbulo se faz necessário para que se compreenda a grandeza humana de São José. Com toda a sua limitação e imperfeição de ser humano, soube, em vida, mais do que ninguém, ser um homem de fé.
  Acreditou sempre, até no impossível, porque o Deus em quem confiava era capaz de superar o que as forças e a imaginação humana não podiam sequer conceber.
   A ele nunca lhe falou um Anjo resplandecente, menos ainda um Arcanjo ou Serafim vindo do céu. Deus jamais se lhe manifestou com a glória com que apareceu a Moisés no Sinai. Não foi privilegiado com visões extraordinárias no Templo, como seu parente Zacarias, nem escutou a potente voz de Deus, como alguns profetas (Lc 11,11-20, IS 6,1-8). Foi através de um tênue sonho que se lhe revelou a misteriosa vontade divina para que aceitasse a sua prometida, grávida, como esposa, não tendo ele nada que ver com tal concepção.
  Mas como isso aconteceu? José encontrava-se radiante, mal podendo esperar seu casamento com a jovem mais linda e cândida do pequeno povoado de Nazaré: a filha de Joaquim e Ana – casal exemplar e respeitado por todos.A noite sonhava, e durante o dia se preparava para seu casamento. Suas mãos de artesão talharam e poliam a madeira de sua nova casa. Cada prego da mesa era um sonho que se firmava, e ao aplainar a madeira da cama louvava a Deus por ser o noivo mais agraciado de toda a região. Como era pobre, José não poderia oferecer a Maria um anel de ouro, mas sim um de madeira, feito por ele, habilmente, na oficina.
      Mas José foi surpreendido por Maria com uma noticia imprevisível: sua prima Isabel, de idade avançada, estava esperando um bebe.
      ─ Como sabes? Faz mais de três semanas que não chega burro do Sul, trazendo correio.
     ─ Tenho certeza... ─ Foi a única resposta dela, e guardou silêncio. Maria lhe disse, então, que deveria ajudar sua prima. Cruzaria o vale, passaria por Samaria e em seguida subiria as montanhas da Judéia para ajudar sua parente necessitada. Perplexo, José nada disse, ainda que lhe parecesse ilógico que às vésperas das bodas ela se ausentasse...
       E Jose sofreu com a misteriosa viagem de Maria a Judéia. Quanto mais confiança se tem na fidelidade da pessoa amada, mais terrível e angustiante é a duvida. As suspeitas magoam o mais profundo do coração, e as evidências são punhaladas que ferem mortalmente o amor.
     Mas José teve um sonho. O anjo do Senhor manifestou-se a ele em sonho, dizendo: “José, filho de Davi, não temas tomar contigo Maria tua esposa, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho e tu o chamarás com o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo dos seus pecados”. (MT.1.18.20).
  Para qualquer outro homem essa explicação seria inverossímil, absurda, mas não para José. Ele creu porque sua fé estava firmada no Deus dos impossíveis, e seu amor por Maria não tinha sofrido o mais leve arranhão.
   A fé, uma das virtudes teologais, foi experenciada por José na sua verdadeira magnitude, e nenhum outro homem a viveu de maneira tão bela e completa. Em outra ocasião, ainda em sonho, José foi avisado pelo anjo que Herodes pretendia matar o menino Jesus, e que ele devia fugir levando consigo a sua família. Por último, é avisado da morte de Herodes. Retorna, mas sabendo que Arquelau, filho de Herodes era o rei da Judéia, foi morar na região da Galiléia, na cidade de Nazaré. Em todas as ocasiões, José seguiu fielmente as recomendações de Deus.
      Não só a fé animou José, ainda que ela seja condição necessária e indispensável a qualquer um de nós. Sem fé não há caminho e nem caminhante. Sem fé não há esperança e nem sonho. José soube amparar e defender com coragem sua família. Representava para Maria todo o apoio e segurança de que uma mulher necessita e que pede a seu esposo. Soube, como homem e esposo, com determinação e coragem enfrentar, â noite, a aridez do deserto, fugindo do rei Herodes e carregando o filho recém-nascido. Assim nos diz o evangelista: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito. Fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para matar”. Ali ficou até a morte de Herodes. (MT.2,13,17.)
     José, como esposo e pai legal de Jesus, foi, sem dúvida alguma, não uma figura de pai postiço, apagada, inexpressiva. Enfrentou, como pai de família, as pedras do caminho, e ao lado de Maria soube removê-las sempre, com coragem e fé. “O casal humano é como essas barcas que necessitam de que duas pessoas remem juntas, sincronizando os esforços. Se assim não o fazem, é impossível avançar”.
     “Se Maria chegou a ser bendita entre todas as mulheres, foi porque Deus lhe concedeu e comunicou a superabundância de seus dons através de seu esposo, com vistas à singularíssima vocação de ser mãe de seu Filho amado”.
      Na verdadeira união nada se disputa, e nem se deve comparar ou competir, mas compartilhar e complementar. A limitação ou defeito de uma parte do casal não deve provocar senão o serviço de complementação da outra. É esse o verdadeiro e maravilhoso plano de Deus.
   No verdadeiro matrimônio supõe-se: um homem, uma mulher e Jesus. O amor de Jesus derramado no coração do casal humano é o que une um ao outro. “A base insubstituível da unidade e do amor conjugal só pode provir de Jesus”. Nenhum casal jamais viveu tão profundamente o casamento a três como José, Maria e Jesus.
      O sol da justiça e de verdade que ilumina todo homem que vem ao mundo é Jesus Cristo. A lua de graça e de candura é Maria; e na Sagrada Escritura Maria é dita mais esplendida do que a lua. Pois bem, na quieta morada de Nazaré, Jesus e Maria curvavam-se obedientes ao aceno de José, chefe da Sagrada Família, e veneravam-no afetuosamente.
      A Igreja é semelhante a um amplo campo pronto para a ceifa: São José, patrono da Igreja universal, está ali de pé, no meio, para guardá-la e abençoá-la.
   Esposo de Maria. Ser esposo de Maria significa ser esposo da criatura maior que jamais houve no céu e na terra, da criatura que foi mãe de Deus.
   Ser esposo de Maria significa ser esposo da rainha dos anjos, dos arcanjos, dos patriarcas, dos profetas, dos apóstolos, dos mártires, da rainha sem mácula; da rainha da paz.
    Pai de Jesus, José não foi, é verdade, o pai natural de Jesus, porque o Filho de Deus se fez homem encarnando-se no seio puríssimo de Maria Virgem, por obra do Espírito Santo. Mas São José teve toda a autoridade e responsabilidade de pai. A própria Nossa Senhora, na alegria de reencontrar o Menino entre os doutores, lembra São José com o nome de Pai: “Teu pai e eu, chorando, muito te procuramos”.
   São João Damasceno nos diz: “Não é apenas a fecundidade no gerar que dá a alguém o direito de se chamar pai, mas também a autoridade no governar, e a responsabilidade da vida”. E foi São José que subtraiu Jesus a todos os perigos, que o criou em sua casa, que o fez crescer. Foi São José que ensinou um ofício ao Filho de Deus. E quem sabe o que se passava em sua alma quando Jesus lhe dizia: “Pai!”.
       Se Deus destina uma pessoa a algum ofício sublime, reveste-a de todas as virtudes necessárias para bem cumpri-lo. Assim, tendo Ele escolhido Maria para ser sua Mãe, encheu-a de graça, elevando-a acima de todas as criaturas. Do mesmo modo, em proporção, tendo escolhido São José para a dignidade de seu pai legal e de esposo da Virgem, cumulou-a de graças imensas, como a nenhum outro santo.
      O evangelho chama a José “homem justo”. E São Jerônimo explica que essa palavra “justo” significa que ele possuía todas as virtudes. Enquanto os outros santos se assinalaram, particularmente, um por uma virtude e outro por outra. São José foi perfeito igualmente em todas as virtudes.
   São José mais do que cumprir fielmente o seu papel de pai e esposo.salvou a vida do Rei do Céu, do Jesus Menino, quando a conspiração de Herodes procurou matá-lo.
    Então se compreende como Santa Tereza podia dizer: “Nunca se ouviu dizer que alguém tenha recorrido à bondade de São José e não tenha sido atendido”. Se não me credes, por amor de Deus vos suplico fazerdes a experiência, e me crereis”.
   Jesus ensinava: “Quem der em meu nome, ainda que seja um simples copo de água ao último pobre deste mundo, terá grande recompensa”. Que recompensa não terá, pois, no Paraíso, São José, que não deu apenas um copo de água ao último pobre, mas por trinta anos sustentou e protegeu em sua casa o Filho de Deus?
     “A vida é peso”, disse São Paulo, e nós o experimentamos todos os dias: peso por causa das dores, peso por causa dos trabalhos, peso por causa da morte.
     Recorramos a São José na dor. A ele, que, na noite de Natal, no alvor do inverno, bateu de porta em porta e foi forçado a por no presépio dos animais o Filho de Deus; a ele que teve de fugir, afastando-se de seus parentes, da sua terra, de sua oficina: a ele que, durante três dias, entregou-se à afanosa procura, quando perdeu Jesus em Jerusalém.
     Recorramos a São José no trabalho. Quem sabe quantas vezes na oficina de Nazaré ele não se terá sentido abatido sob a fadiga, e quantas vezes não terá visto os seus modestos negócios irem mal.
    Recorramos a São José para uma boa morte. Morrer bem, não é coisa fácil. E a todo instante comprovamos isso. O progresso da civilização, automóveis, aviões, etc., assinala um crescente número de mortes imprevistas; a corrupção dos costumes assinala também um grande número de mortes impenitentes. E o protetor, para se ter uma boa morte, é São José.
      Realmente, ninguém teve uma morte tão boa como ele. De um lado tinha Nossa Senhora, que chorava e orava; do outro tinha Jesus, que lhe amparava a cabeça e lhe sussurrava: “Graças por tudo o que me fizeste; agora morre em paz. Morre no meu ósculo, e desce ao Limbo, onde anunciarás que a hora da redenção é chegada. Poucos anos mais, e passarei por lá para te apanhar e te levar para o Paraíso, que abrirei com minhas mãos, que serão traspassadas” São José não respondeu, pois não tinha mais forças: apenas esboçou um sorriso e morreu.
    Eis aí um breve relato da vida de São José, que me fez amá-lo ainda mais.
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                                    Roberto Gonçalves


 
RG
Enviado por RG em 05/09/2012
Alterado em 21/05/2014
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