Roberto Gonçalves

"Tudo vale a pena quando a alma não é pequena"

Textos

                                         Sacerdote
 
1 - Kant disse: "Eu tive que destruir o saber para erigir a fé"  - É necessário?

"Depende do sentido a se dar ao verbo "destruir". Kant não se tornou nenhum analfabeto, para "erigir a fé". O que se quer dizer, me parece, é silenciar o saber, renuciando às provas de moldes científicos, saltar o abismo de onde cessa a lógica.
   É interessane notar que em certas épocas se repetiu o gesto de Kant. Para salvar valores mais altos, tentou-se atirar carga ao mar. E a sacrificada foi sempre a ciência (na sua mais completa expressão). Assim foi na decadência da escolástica com a Imitação de Cristo. Assim se repete em nossos dias com o apelo ao irracional, ao místico. Parece que nossa geração se saturou de racionalidade. A técnica, a ciência, a razão e a própria verdade são acusadas dos descalabros da história atual. A razão entrou em crise, proclama-se a falêncica do discurso racional. Heidegger apresenta a anti-razão, ressuscitam os místicos, apela-se para a irracionalidade.
   Como as outras, esta crise passará. Fé e razão devem coexistir, pois estão a serviço do homem. Para isto, é necessário a redescoberta da razão, restaurar a dignidade da racionalidade, restituindo-lhe o lugar usurpado pela racionalização".

2 – O que vem a ser o livre arbítrio?

"Problema complexo da filosofia medieval, moderna e contemporânea, o livre arbítrio é a afirmaçpão da liberdade humana. Para os medievais, o problema era conciliar o livre arbítrio  e a escolha do mal com a presciência divina. Hoje, o problema é conciliar liberdade com os diversos tipos de determinismo.

3 - Qual é a sua imagem de Deus, e qual é a sua imagem do Homem?

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problema da imagem de Deus é produndamente inquietante. Em grande parte, os desvios e aberrações foram a resultante de uma má apresentação de Deus. O próprio ateísmo contemporâneo é ainda uma recusa a um conceito pobre da divindade. Em segundo lugar, a razão sozinha jamais terá condição de compor uma imagem mais aproximada da divindade. O deus dos filósofos, além de terrivelmente polimorfo, é genericamente insatisfatório, dada a dimensão desproporcional do objeto com a razão – a incomensurável, o impensável e infinito. Deus, entretanto, se deu a conhecer. Creio, pois, que para compormos a imagem de Deus, temos de apelar, ao lado dos dados metafísicos, para a história da revelação.
   Entendido como eminentemente sábio e eminentemente bom, será, num esforço para delinear os grandes traços da imagem de Deus, o Deus da compreensão, do amor, da tolerância, enão o Deus do recalque e da vingança. Será o Deus que dirige, com providência sábia e amorosa os caminhos dos homens, segundo o ensinamento de Jesus, corrigindo a afirmação insatisfatória e alientante do filósofo de que Deus sublunária non curat. O homem, criado livre e inteligente, é chamado por Deus a completar a criação e realizar seu destinho histórico (como ciliar a presciência e onipotência de Deus com a liberdade e historicismo do homem?
   O homem, megalomaníaco, jactant de sua grandeza e realeza, lentamente vai compreendendo sua profunda indigência: indigência de inteligência absoluta, de justiça absoluta, de liberdade absoluta; ainda aqui a história da revelação  – a perspectiva cristã, vem completar a visão filosófica. A par da sede metafísica de Deus (Fizeste-vos para vós, Senhor, e nosso espírito está inquieto, enquanto não repousa em vós – exclamou o filósofo e santo Agostinho) há ainda a presença do fermento evangélico operando no homem e apresentando sua descoberta de Deus (o reino dos céus é como o fermento... até que fique levedada toda a massa – ensinamento de Jesus), O homem, portanto, é conquista. Cada qual deve conquistar-se, par se tornar autenticamente homem. A vida é combate.
   Ocorro-me algo interessante que li, não sei onde. Uma associação entre a imagem de Deus e a educação nas crianças. Afirmava o autor que a concepção de Deus se avalia pela quantidade de palmadas nas nádegas das crianças. Cita como exemplo a concepção calvinista e os processos educativos de refinada severidade adotados por certos protestantes.
   O problema de Deus está intimamente ligado ao problema do homem. Disto nós católicos tivemos farta experência neste 2000 anos de rica história de nossa insituição religiosa – passando pela santa inquisição, naturalmente".


4 - São Paulo afirmou: " Tu não serás julgado pela escrita dos homens, mas pela lei inscrita do teu coração. - Comente.

A
 celebre sentença  de São Paulo pode levar, e tem levado alguns ao relativismo moral. É preciso, no entanto, evocar o conceito de lei naural, de acordo com o qual cada um tem inscrito no seu próprio ser o que é bom e o que é mal. A natureza é a norma básica de conduta. Modernamene, contudo, pela negação do conceio de naureza humana, principalmente pelo existencialismo, o conceito de lei natural sofreu um abalo.
   A "non scripta sed nata lex" aprofundada na Grécia pelos estóicos, em Roma por Cícero e Marco Aurélio, percebida pelos sofistas e Sócrates e antes pela filosofia chinesa tem neste texto de São Paulo uma afirmação lapidar. É que "o Deus que se revela e nos chama à salvação é também o Deus criador e quer ser reconhecido como tal. A lei natural... é a expressão de sua Palavra, implícita, é verdade, mas não menos real. (René Coste, "Morale pour un Monde em Mutation, pág. 32).

5– Para o puritan de ontem pecado era ceder aos desejos sexuais; o puritano de hoje crê que pecado é não atingir expressão sexual complea. - O que mudou?

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O puritanismo é realmente irrecuperável: Mudou a perspectiva face ao corpo. O "corpo de morte" passou a ser "corpo de vida". Por muito tempo refreado e castigado pelo espírio, hoje o corpo se revela e, diga-se de passagem, não sem justos motivos. O problema é encontrar o meio termo, onde se situa a virtude.
   Afinal, creio que a visão tradicionalo do corpo estava fortemene condicionada por circustâncias históricas. A luta contra o humanismo pagão e os excessos orgíacos deste, a insegurana pro três séculos perseguição, as escatologias exaltadas então comuns, a par de um conhecimento científico deficiente sobre o corpo humano criam um quadro que justifica tal colocão a partir dos primeiros tempos do cristinianismo. Se a isto acrescentarmos o platonismo, então muito popular e influências do maniqueísmo, compreendemos vemos como o ocidente chegou à elaboração de uma tão puritana e repressiva moral sexual.
   Ainda aqui o homem é conquista".

Roberto Gonçalves

 
RG
Enviado por RG em 25/10/2013
Alterado em 04/11/2013
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