Roberto Gonçalves

"Tudo vale a pena quando a alma não é pequena"

Textos


 Plenilúnio de Ana
 
   A crônica da história humana fala de lágrimas, de muitas lágrimas. De lágrimas silenciosas que inundam meu coração. De outras mais explicitas, menos veladas, incontidas, que molham sem medo e vergonha o meu rosto. De duas lágrimas, silenciosas, que insistem em permanecer em mim, lágrimas saídas do rosto de minha mãe quando lhe foi introduzida uma sonda, longa, doída, no seu corpo frágil, num leito de hospital. Lágrimas de ver uma mulher de 107 anos de idade, escondida em si mesma, invisível na simplicidade do ser, no tempo e no espaço, linda e generosa, como flor, rara, incansável no trabalho diuturno de ser vida na olaria do bem. Com mãos de fada, dava elegância aos tecidos mais simples, e gosto aos alimentos menos desejáveis; vestia e alimentava a sua numerosa prole; bordava estrelas onde existia nada. Ela, que nunca exerceu o matriarcado, que não usou sapatos de saltos altos...
   A beleza jovem, iluminada, acrescentou meneios sedutores às suas formas, e seu corpo de mulher, mulher guerreira, majestosa, como um campo florido – a sua beleza sobrevive na sua forma centenária, os mistérios de sua vida, suas sombras, os sons de seus gritos – sufocados – guardou-os para si.
  Choro por minha mãe que, no leito de hospital, distribui sorrisos, encanta e emociona enfermeiras e médicos, beijando-lhes as mãos e agradecendo, agradecendo... em seu abençoado gesto.
   Choro pela minha mãe, que, quando a saúde lhe falta, conforta-se com a graça da fé. 
   Choro por minha mãe, e por Malu, um cãozinho que a procura pela casa, e, na sua cama vazia, deita e também chora.
   Choro pela minha mãe que me ensinou amar de forma extremada, radical, que me encheu de ternura, apontando-me as armas do sorriso, do abraço apertado, do perdão, muito, muito, muito antes de pôr na mesa o alimento, o bolo, e as letras do conhecimento.
  Choro pela minha mãe que nas missas de outrora aprendeu a ler e pronunciar bem o latim.
   Choro, choro pela mãe que desconhece a semântica das palavras dicionarizadas, mas sabe compreender e empregar a força de seus verdadeiros sons.
   Choro pela minha mãe que foi alfabetiza na Filosofia do Respeito e do Amor pelo ser.
   O meu pranto, é o pranto de quem encontra, na aridez da vida, um riacho de águas cristalinas, escondido, onde pássaros cantam e se banham, e me ajoelho para ali beber da vida. 
  O meu pranto é o pranto de espanto diante da visibilidade de Deus nos seu adoráveis olhos, nos quais reluz uma luz que já não é deste mundo.
   Ah! quantas vezes o Pai, ansioso, espiou pela janela do céu, para ver se ela estava chegando.
 Ana, a mulher forte da BÍBLIA, nos mistérios insondáveis do ETERNO.

 
                              Roberto Gonçalves  
                            Escritor

    (Ana Freire Gonçalves, faleceu em 2012, no Dia das Mães; dedico este texto a todas às Mães do Mundo)
                  
                               
                                               

                                 
RG
Enviado por RG em 10/05/2014
Alterado em 12/12/2016
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