Roberto Gonçalves

"Tudo vale a pena quando a alma não é pequena"

Textos


Os Quatros Gigantes da Alma

  No seu livro, os "Quatros Gigantes da Alma: O Medo, A Ira, O Amor, O Dever",  Emílio Mira Y Lopez, ex-Professor de Psicologia e Psiquiatria da Universidade de Barcelona (Espanha) Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1968, faz uma análise profunda sobre os quatro gigantes da alma.
   O homem, diz ele, é o único animal que não sabe viver. Dir-se-há que tal apanágio é como um tributo que decorre da sua própria diferenciação, à medida que ele alcança a culminância dessa posição que o julgamento antropocêntrico convencionou estabelecer como o último degrau evolutivo da condição animal. Mas o fato é que, em semelhante jogo dialético, a síntese atingida reduziu o homem ao mais infeliz dos animais, na mesma proporção em que o tornou o mais complexo dos seres. Tão infeliz, que ele se viu na contingência de forjar filosofias e arquitetar religiões, procurando evadir-se da realidade, ora por vida da quimera, ora pelo caminho do pessimismo conformista, mas sempre através de mecanismos de defesa que, progressivamente, o distanciaram do atalho pelo qual ele deveria se encontrar a si próprio.
   Precisamente por essa extensão e profundeza de seus temas, nossa Ciência é hoje, paradoxalmente, mais abstrata e mais concreta que há um século; se, por um lado, estuda Fulano de Tal com os maiores detalhes, por outro, em compensação, dissolve-o em um verdadeiro oceano de heterogêneas forças (físicas, químicas, biológicas, sociais) no qual resta apenas sua corporeidade como simples ponto de referência. 
  O homem em estado primitivo ou "selvagem", o Homem Natura,
 é principalmente movido pelos ingentes impulsos de preservação e de expansão do seu ser, os quais constituem os complexos dispositivos defensivo-ofensivos e procriadores vulgarmente conhecidos como "instintos de conservação e de reprodução". Estes se revelam em nós a cada momento, primeiro sob a forma de leves "desejos", depois, de claras "ânsias" e, mais tarde, se não são a tempo satisfeitos, de imperiosas e incontidas "necessidades de fuga, de ataque ou de posse",
  O Medo, a Ira e o afeto ou Amor. A energia que elas são capazes de mobilizar  e veicular é tão grande que tudo o que o Homem tenha feito, de bom ou de mau, sobre a Terra, se deve levar,  fundamentalmente, à sua conta. Aqui entra em jogo outra imensa força — "Homo Socialis",predominantemente repressiva das anteriores, que é vulgarmente conhecida com os nomes de Lei, Obrigação, Costume, Norma, Tradição, etc, não somente contida em Códigos e Mandamentos mais ou menos sagrados, mas em determinadas "Autoridades", que usam seu poder para introduzí-la equitativamente em cada cérebro, logo que este seja capaz de recebê-la. A essa quarta força vamos denominar? DEVER. 
   Nossa vida pessoal, de fato, decorre a miúdo pelos caminhos da mera "noesis", do quero "contemplar", "divagar", "saber", ou "raciocinar", – neutro, frio e objetivo. Nossa vida se anima e colore à medida que se deixa penetrar pela angúsia do Medo, pela impulsiva fúria colérica, pelo arrebatador êxtase ou pelo implacável "imperativo categórico do Dever". A partir desse momento, o "Eu" se sente invadido e estrangulado pelos dedos, garras, redes e tentáculos de seus gigantes e assiste como mero expectador à sua terrível luta, para logo obedecer, qual submisso escravo, ao que seria vencedor, ainda quando por um breve por um breve espaço de tempo. A tão alardeada e pomposa "Razão" – que tão brilhantemente se exibe quando o indivíduo se acha "fora" da zona em que atuam aqueles –  é agora igualmente sacudida e atividada de um para outro lado, com a mesma aparente simplicidade com que uma onda altera o rumo de um barco, o vento brinca com as folhas ou um terremoto desmorona uma casa. Por isso não cabe considerá-la, senão como uma anã muito esperta e sabida, que é capaz, às vezes, de aproveitar o sono de seus tiranos para mostrar-se em toda sua beleza ou, inclusive, de cavalgar a seu lado, quando estes vão a passo e não estão muito alertados. 

 
Roberto Gonçalves
Escritor
RG
Enviado por RG em 13/11/2014
Alterado em 20/07/2016
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