Roberto Gonçalves

"Tudo vale a pena quando a alma não é pequena"

Textos


 
ROBERTO GONÇALVES
 



 
Monografia
Apresentada ao Instituto Internacional de
Filosofia Cllínica
Para obtenção do título de 
Filósofo Clínico
 
- ANFIC e INFIC
 
- Curso: Especialização em Filosofia Clínica
- Professores: Profa. Dra. Marta Clauss Magalhães
- Professor Marcelo José Andrade da Silva
- Professora e Doutora Izabel Cristina Pereira
 
DISCIPLINA:
 
1) Introdução à Filosofia Clínica -  Nota 8.0
2) Fundamentação Filosófica - Nota 8.0
3) Historicidade e Dados Divisórios - Nota 7,5
4) Categorias e Exames Categoriais - Nota 8.0
5) Estrutura de Pensamento I,II e III - Tópicos 1 a 30 - Nota 8.5
6) Caderno Médico I: Psiquiatria -  Nota: 8.0
7) Caderno Médico II: Neurociência - Nota 8.5
8) Caderno Médico III - Farmaclogia - Nota 8.5
9) Procedimentos Clínicos - Submodos 01 a 32 -  Nota 8.5
10) Filosofia Clínica Aplicada na Educação - Nota 8.0
11) Estudos de casos clínicos: planejamento - Nota 9.5
12) Leituras Clínicas - Nota 8.0
13) Ética Profissional - Estatuto e Código de Ética - Nota: 8.5
14) Metodologia da Pesquisa - Nota: 9.0
15) Matemática simbólica - Nota: 8.0

 
- Histórico vinculado ao Certificado registrado sob o número 020, no livro número 001 de registros de Certificados de Especialização em Filosofia Clínica na ANFIC.
 
BELO HORIZONTE - MG

2015

 
DEDICATÓRIA
 
Dedico este trabalho à Professora e Doutora Marta Clauss Magalhães pela atenção que me propiciaram grandes conhecimentos ao longo do curso de Filosofia Clínica que, certamente, trará muitos benefícios àqueles que irão usufruir dos valores por mim adquiridos.

Agradeço a Deus pelo dom da vida, da inteligência e por sempre me impulsionar na direção dos caminhos mais promissores. "Fora da história o homem é uma abstração, sem realidade"
 
   Belo Horizonte
2015
ROBERTO GONÇALVES 
 


 
A FILOSOFIA CLÍNICA

 
Monografia de Conclusão do Curso de Especilizaçáo em Filosofia Clínica

 
APROVADO

 
BANCA EXAMINADORA

Monica Aiub
Presidente da Associação Nacional de 
Filósofos Clínicos
Profa. Dra. Marta Clauss Magalhães
Diretora do Instituto Mineiro de Filosofia Clínica

 
RESUMO
 
Esta Monografia de Conclusão de Curso teve como objetivo realizar um estudo sobre a Filosofia, narrando a sua origem, fundamentos, características, sua visão holística do ser humano e o posicionamento de seus seguidores, os filósofos, que analisam as questões de modo racional para obter respostas sobre o significado da existência humana. O estudo foi possibilitado por pesquisa e utilização de dados bibliográficos pertinentes ao tema e discorre sobre a filosofia desde a antiguidade, citando os mais proeminentes pensadores gregos até os filósofos contemporâneos que, nos tempos atuais, auxiliam àqueles que têm dificuldades para lidar com os seus problemas, permitindo obter, através da Filosofia, a harmonia e o equilíbrio. No contexto desse trabalho foi desenvolvido o tema Filosofia Clínica, ramo decorrente da Filosofia, criado pelo filósofo e médico gaúcho Lúcio Packter que, após extensas pesquisas e várias experimentações, agregou os valores da filosofia aos da clínica, resultando em uma alternativa terapêutica que assegura inúmeros benefícios aos que a procuram. A Filosofia Clínica trata cada um de modo individual por meio de aplicação de técnicas e métodos inovadores, sem regras rígidas, embora seguindo a metodologia própria e obedecendo a um princípio básico: o respeito ao indivíduo, sua verdade, seu mundo e suas decisões.

Palavra-chave: Filosofia. Clínica. Existência humana. Filosofia Clínica. 
 
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO - 07    
2 A FILOSOFIA -  09
2.1 Origem e Características -  09
2.2 Definição -  09
2.3 Filosofia no Século XX -  10
2.4 Filosofia e Medicina -  10

3 FILOSOFIA CLÍNICA - 12
3.1 Filosofia Clínica no Brasil - 12
3.2 Métodos - 13

4 FILOSOFIA CLÍNICA
NO ATENDIMENTO A VÁRIOS SEGMENTOS - 16

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS - 17

   REFERÊNCIAS -  19
 
1 INTRODUÇÃO
 
    Em sua etimologia, a palavra Filosofia é formada por duas palavras gregas: philo que significa amigo e sophia, sabedoria e, basicamente, significa amor à sabedoria. Estuda os problemas primordiais ligados à existência, ao conhecimento, além de dar uma explicação racional e lógica aos fatos.
     A Filosofia ocidental surgiu na Grécia antiga e teve em sua história ilustres pensadores e filósofos que deram uma importante contribuição ao saber da humanidade, a partir do século VI aC, dentre os quais: Aristóteles, Protágoras, Hipócrates, Platão. 
     Este Trabalho de Conclusão de Curso teve como objetivo abordar o tema Filosofia Clínica com a finalidade de trazer uma melhor compreensão sobre o assunto, destacando seus métodos e os benefícios obtidos com a terapia aplicada por seus profissionais no atendimento dos indivíduos que necessitam resolver suas questões existênciais.
   O estudo é, inicialmente, organizado de forma a conceituar a Filosofia, situar sua origem e dados básicos para, posteriormente, aprofundar sobre o tema Filosofia Clínica, como surgiu, do que se trata, seus fundamentos, métodos, propósito terapêutico e sobre a profissão e o comportamento do filósofo clínico.
      Foram realizadas pesquisas bibliográficas que deram suporte para a realização deste trabalho e trazidos pensamentos de grandes filósofos que, desde tempos imemoriais, influenciaram a humanidade e contribuíram extraordiariamente para o progresso das ciências e da sociedade. O trabalho ainda destacou o retorno da Filosofia aos meios intelectuais e terapêuticos na década de 1980, contando com o auxílio de renomados filósofos contemporâneos que a praticam até os tempos atuais no socorro aos que se afligem com suas dificuldades e adaptações aos problemas da vida.
 Na sequência, abriu-se espaço para a identificação das características distintas da Filosofia Clínica, com destaque para a prática do caminho do meio e do equilíbrio dos estados emocional, mental e físico do partilhante, além do alcance dos resultados propostos no início do tratamento. Em seguida, o trabalho apresenta a ligação entre a Medicina e a Filosofia, os métodos utilizados na Terapia da Filosifia Clínica, para, no final desse estudo, discorrer sobre os Eixos Fundamentais sobre os quais a Filosofia está apoiada.
   Nas Considerações Finais, o autor deixa suas impressões sobre essa terapía que, desde o final da década de 1980, tem trazido benefícios às pessoas que necessitan de apoio profissional na busca de uma vida melhor
 
2 A FILOSOFIA

    A Filosofia é ciência que estuda e averigua, por meio da reflexão e análise racional, as questões ligadas à existência.

2.1 Origem e Características
 
    Originária da Grécia antiga, a Filosofia ocidental data do século Vi a.C, e apresenta como características a admiração e inquietação perante a realidade. Como afirmou Platão, em Diálogos: Teeteto e Crátilo (1988), a mais marcante característica presente no filósofo é a admiração, Destacou, também, na obra Fedro (2002) que o remédio da alma está nos encantamentos presentes nos belos discursos que resultan na sabedoria e propiciam a saúde para a mente e para o corpo, 
   Possui ainda o importante atributo de analisar racionalmente a natureza e os fatos. Aquele que pratica a filosofia procura o próprio conhecimento e sua relação com o universo, motivado pelo interesse natural existente no ser humano, em busca de respostas, baseadas na razão, às suas indagações.
 
2.2 Definição

  Para se perceber a dimensão da importância da filosofia é fundamental conhecer alguns conceitos para entender sua extensão.
       
     Abbagnano (2003) cita o Eutidemo platônico no qual se encontra a definição mais adequada: a Filosofia é o uso do saber em proveito do homem. É uma ciência na qual o fazer e o saber valer-se que se faz se completam. (Eutid, 288 e 290 d.C). Assim, depreende-se que a Filosofia é o uso de um conhecimento mais amplo e válido adquirido pelo homem em seu próprio benefício. 
    Russell (1962) afirma que o único modo de saber o que é filosofia é fazendo filosofia
   Saviani (1980, p. 27) considera filosofia como "uma reflexão (radical, rigorosa e de conjunto) sobre os problemas que a realidade apresenta". Saviani (1980, p. 23) ainda conceitua reflexão como: "Refletir é o ato de retomar, reconsiderar os dados disponíveis, revisar, vasculhar numa busca constante de significado. É examinar detidamente, prestar atenção, analisar com cuidado".
2.3 Filosofia no Século XX
 
    Após um período de esquecimento e depreciação dos valores da Filosofia, com consequente desuso, desenhou-se um aprazível panoroma para aqueles que descobriram um caminho novo para recuperar a capacidade de lidar com as situações cotidianas e com o mundo, através do retorno à primordial reflexão induzida pela prática da Filosofia.
     O movimento de valorização e redescoberta da Filosofia aconteceu na década de 80 com repercussão favorável na sociedade e acenando como alternativa diante da possibilidade de novo tratamento. (AIUB, 2008, p. 23).
     Achenbach (1989), na sociedade da época, levantou a questão da não utilização da metodologia da Filosofia no auxílio aos indivíduos necessitados de tratamento, assim como outras ciências, psicologia e psiquiatria, já o faziam, e, juntamente com Saulet (1999) e Marinof (2001) obteve o reconhecimento por sua conduta filosófica e atuação com os métodos  que a Filosofia oferece em prol da resolução das dificuldades das pessoas.
     Conforme Sautet (1999, p. 61): "De fato, o primeiro 'consultório de filosofia' foi aberto na Alemanha em 1981 e, ao que parece, existe uma centena deles no mundo".
 
2.4 Filosofia e Medicina
    
    O exercício da filosofia como recurso para o entendimento das indagações e incertezas da vida torna-se poderoso auxiliar na prevenção e no tratamento das enfermidades.
  Através da aplicação dos princípios filosóficos, alcança-se a compreensão do todo e da ligação entre as partes e, com o corpo, a alma, a natureza e a sociedade haqrmonizados alcança-se o estado de equilíbrio, meta final capaz de gerar a saúde. (AIUB, 2008, p. 20).
    Jaeeger (1989, p. 689) citado por Aiub (2008, p.21), explica, no livro Paidéia, que foi através da influência dos Jônios, povo pertencentte a uma das quatro etnias formadoras da nação grega e primeiros pensadores a filosofar sobre o problema da existência de uma causa suprema de todas as coisas, que a Medicina obtever um avanço considerável como ciência, já que trouxeram uma visão clara e racional sobre o desenrolar e as peculiaridades das etapas das enfermidades, além da ligação entre a parte e o todo.
   Aristóteles menciona o equilíbrio em sua principal obra Ética a Nicômanos atribuindo-lhe o conceito de meio termo, no qual o ideal é descobrir o caminho do meio com sensatez, verificadas as circunstâncias. (ARISTÓTELES), 1985, p. 23),
    Hipócrates, conceituado filósofoe considerado o pai da Medicina, igualmente reconhecia o equilíbrio como o caminho ideal para atingir o estado de saúde, observadas as características pessoais e os ajustes individuais. Assim, indicava cuidados individuais a serem tomados como a observação da temperança na prática de exercícios, na quantidade da alimentação e de bebidas ingeridas, na exposição aos ventos e na interação com o mundo para se obter o estado de saúde. (HIPÓCRATES, 2002, p. 25)
     Conforme as definições e valiosos conhecimentos dos filósofos que direcionam a busca do valor do equilíbrio, do meio termo, do caminho do meio, não só nas virtudes da alma, mas também nos cuidados e na manutenção do corpo, do ser emocional e mental, percebe-se a importância da filosofia como prevenção e terapia. (AIUB, 2008, p.25).
   Os valores da Filosofia agregados aos recursos que a Clínica oferece, após intenso estudo e vários anos de experimentação de técnicas, permitiram o surgimento e aplicação da Filosofia Clínica descrita no tópico seguinte.
 
3 FILOSOFIA CLÍNICA
 
     
     Segundo Aiub (2008), a Filosofia Clínica possui todos os princípios da Filosofia e, também, é Clínica devido ao seu objetivo de tratar e curar. Onde se pratica a Filosofia Clínica há o tratamento da pessoa que procura resolver suas questões, refletindo, buscando opções e fazendo escolhas dentro da realidade em que vive para alcançar a melhor resolução e superar suas dificuldades.
    A autora relata que o indivíduo tratado pela Filosofia Clínica leva seus problemas e divide suas dificuldades com o Terapeuta que o leva a meditar e pensar sobre si e o mundo, e em influenciar nas suas escolhas, o filósofo clínico o faz vislumbrar as opções do dia a dia, a fim de que, entendendo a si próprio e aos outros, consiga alcançar a melhora de seu estado.
     Para Aiub (2008) â Filosofia, que tem a visão do todo e não apenas das partes, foram acrescentadas técnicas que tratam, respeitando a individualidade, direcionando o tratamento para a totalidade do ser, acolhendo-o e ouvindo suas experiências de vida, sem marcar ou definir qual patologia específica atinge o paciente ou partilhante, termo este que designa aquele que busca a Filosofia Clínica para se tratar, já que há um partilhar entre o paciente e o profissional.
   Para a Filosofia Clínica não existe normalidade e patologia e a terapia é direcionada à historicidade do paciente.
   À medida que o tratamento evolui, o filósofo clínico trata o partilhante num processo que ocorre sem julgamentos antecipados ou rótulos, ouvindo as dificuldades e problemas que o afligem, levando-o à reflexão com métodos individuais adequados àquele ser humano e às suas singularidades. (AIUB, 2008, p. 27).
     Packter (2001) define Filosofia Clínica como a filosofia acadêmica conjugada à clínica, e acrescenta que o profissional trata os pacientes se valendo dos conhecimentos da metodologia filosófica aliada à psicoterapia na melhora dos indivíduos.
 
3.1 Filosofia Clínica no Brasil
 
 
     Aiub (2008) relata que Lúcio Packter, filósofo, psicanalista e médico do Rio Grande do Sul, descontente com os resultados da psicanálise e psiquiatria e ansiando por algo mais, após pesquisar o trabalho e filósofos na Holanda, noutros países da Europa e Estados Unidos, tomou a resolução de fundar a Filosofia Clínica que se tornou importante ferramenta terapêutica. No Brasil, após muitas pesquisas e trabalho de anos, criou a primeira clínica filosófica, o Instituto Packter, revestindo esse ramo da filosofia de uma metodologia compatível aos moldes brasileiros.

3.2 Métodos
 
      Para a busca de caminhos e soluções adequados é fundamental que se mergulhe fundo no cerne das questões, sem se deter apenas nas aparências. Para Aiub (2008), a organização das ideias e a escolha adequada do sistema a ser utilizado pelo profissional, no decorrer da terapia, fazem toda a diferença para identificação do direcionamento correto no tratamento das questões existencais do partilhante que procura a Filosofia Clínica. Tanto o Filósofo Clínico quanto o partilhante devem ter isso em mente para o sucesso do tratamento.
     Saulet (1999) afirma que o filósofo para tratar as pessoas deve seguir o método de falar menos e escutar mais e, ao longo das entrevistas, introduzir referências para motivar o interlocutor à reflexão perante suas indagações. E essa também é a postura do filósofo clínico. 
      Paulo e Niederauer (2013) também recomendam extremo cuidado no ouvir do filósofo clínico como item primordial para o sucesso da terapia, já que o desejo de várias pessoas é querer se expressar através da fala para exteriorizar aquilo que as incomoda, objetivando o diálogo com o profissional ou mesmo com um ouvinte indeterminado.
     Conforme Aiub (2008), para a construção do perfil do partilhante, ao ouvir o relato durante a coleta da história, o filósofo clínico interfere o mínimo possível evitando que o paciente se desvie do assunto e perca de vista lembranças preciosas no encadeamento dos fatos buscados no passado. Dá-se a denominação de agendamentos mínimos a essas interrupções ligeiras, mas necessárias para o estudo posterior do terapeuta a respeito do caso.
    Ainda de acordo com Aiub (2008), o filósofo clínico se posiciona como pesquisador do eu do partilhante conforme seus relatos, trabalhando com a representação do que ele é, do que manifesta e do que aparenta ser, e, sem estabelecer julgamentos ao seu modo de ser, leva o auxílio àquele que tem dificuldades de se conduzir diante de problemas afetivos, de socialização, autoconhecimento, relacionamentos de toda ordem, entre vários outros e, seguindo o princípio primordial da Filosofia Clínica, tem respeito ao partilhante e às suas decisões.

A primeira lição fundamental na Filosofia Clínica é que aquilo que uma pessoa sente, vive, afirma, faz –-, independente de ser compartilhado com as outras pessoas, de ser aceito, criticado, ironizado, proibido e assim por diante.  (PACKTER,2001, p. 26-7).   

     O princípio de Protágoras, brihante filósofo grego da Antiguidade, na medida de todas coisas significa, em suma, o respeito à exposição do que a pessoa representa ser, de acordo com suas informações.
     A Filosofia Clínica possui um método ajustável que se amolda às necessidades pessoais. Dentro do rigor de seus princípios há flexibilidade e, após o conhecimento do histórico do paciente, faz-se o tratamento no qual o indivíduo é tratado como um todo, seguindo um roteiro apoiado nas bases filosóficas e, a partir daí, os procedimentos clínicos.
 
3.3 Eixos Fundamentais da Filosofia Clínica
     
   Para Paulo e Niederauer (2013), o terapeuta ao iniciar o atendimento do partilhante segue a metodologia que se resume em:

a) Assunto Imediato / Último;
b) Historicidade - Divisão e Enraizamento;
c) Exames Categoriais;
d) Estrutura de Pensamento;
e) Procedimentos Clínicos.
  
      Assunto Imediato é o motivo ou impulso de a pessoa procurar a Terapia, de acordo com Paulo e Niederauer (2013). As autoras apontam o Assunto Último como aquele que surge no decorrer da Terapia.
       Conforme Pavese (2004), a Historicidade Clínica é a fase em que, de acordo com os relatos do paciente, o terapeuta coleta e anota os dados materiais e imateriais que fazem parte de todas as fases passadas e vividas do paciente, bem como todas as suas experiências e lembranças, prazerosas ou não.
     De acordo com Aiub (2005) os principais eixos sobre os quais a Filosofia Clínica se apoia são os Exames Categoriais como aqueles realizados logo no começo do tratamento do partilhante, quando se faz necessário conhecer o contexto, a vida presente e passada, os relatos sobre como e onde se vive, trabalha ou estuda, suas questões, enfim, sua historicidade geral e como reage a todo esse universo tão pessoal com suas verdades e no que acredita como real.
     Packter (s/d) comenta que os Exames Categoriais:..."são exames iniciais cujo objetivo é o de localizar existencialmente a pessoa. Exemplo: onde mora, qual o idioma, como é a situação política e histórica em seu pais, e assim sucessivamente".
      Após a montagem dos Exames Categoriais, Aiub (2005) relata que o filósofo clínico passa à fase da Estrutura do Pensamento (EP) que é uma abordagem ampla com trinta tópicos, realizada com o partlhante em busca de informações pormenorizadas, por meio dos quais há a possibilidade de alcançar uma ideia bem próxima do seu todo, de suas impressões da vida, sensações, seus valores, religião, a fim de que adquirir um conhecimento o mais aprofundado possível de seu mundo.
     Packter comenta sua impressão sobre a Estrutura de Pensamento:

Quero confessar algo que descobri trabalhando em clínica por milhares de horas: a estrutura de pensamento não é rígida. A EP é móvel, ela se transforma e evolui
a cada segundo durante a vida da pessoa. Mas, nesse caso, como é possível se fazer clínica, uma vez que a pessoa se modifica ano após ano, às vezes de um dia para o outro, conforme o estado de ânimo? PACKTER, 2001, p.83)
    Segundo Aiub (2005), os Submodos são procedimentos clínicos realizados após a observação da maneira que o partilhante se comporta diante de suas questões, e já se encontram relacionados à Estrutura de Pensamento e aos Exames Categoriais, têm sua aplicação determinada em conformidade com a legitimidade das informações obtidas e analisadas pelo filósofo sobre seu comportamento, sua personalidade e questões a serem resolvidas.


4 FILOSOFIA CLÍNICA NO ATENDIMENTO A VÁRIOS SEGMENTOS

      A pressão que o indivíduo sofre com cobranças da sociedade e da família tem gerado proporções preocupantes na atualidade e provoca situações de stress e quadros de depressão, desajustes e desequilíbrios, desencadeando as mais variadas somatizações e sofrimentos nas pessoas que não sabem lidar com seus problemas. O filósofo clínico tem tido uma demanda maior em vista desse quadro multifatorial que atinge a população e trabalha resgatando e/ou restabelecendeo a harmonia no ser humano como indivíduo e, também, auxiliando-o como integrante de variados grupos da sociedade. 
    Aiub (2008) destaca que, nos tempos atuais, o atendimento da Filosofia Clínica não se restringe apenas aos casos individuais, mas atende também a casais, grupos, organizações, comunidades, empresas, instituições e outras áreas afins, seguindo os mesmos princípios e procedimentos, adaptando os métodos às circunstâncias e pondo em prática o princípio do todo, peculiar à Filosofia. Acrecescenta que o atendimento do Filósofo Clínico é estendido também aos pacientes terminais e familiares, aos que sofreram a perda de entes queridos e, ainda, às equipes assistenciais de tratamento em conjunto com médicos especialistas.
   No atendimento às instituições, empresas e organizações, de acordo com Paulo e Niederauer (2013), o filósofo clínico se inteira, primeiramente, dos Valores, Missão e Visão da organização e, em seguida, procede atentando aos mesmos princípios que a Filosofia Clínica utiliza no tratamento individual. Após a intervenção do filósofo nesses grupos, ocorre o crescimento e, consequentemente, a geração de oportunidades para os membros pertencentes ao quadro de pessoal, além dse criar um relacionamento mais saudável entre os funcionários. Todo esse processo é executado com a utilização da flexibilidade e adaptação dos procedimentos a cada instituição em sua característica própria.
 
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
 
    Após a exposição do estudo realizado neste Trabalho de Conclusão de Curso, depreende=se que a Filosofia, desde tempo remotos, promoveu o saber e proporcionou o equilíbrio àqueles que seguiam seus preceitos, apresentando a característica de ser uma ciência fundamentalmente baseadas na visão racional e não na religião ou fé.
     Nos dias de hoje, desde sua revalorização após a década de 1980, a Filosofia, utilizada como tratamento, tem ganhado espaço e vem promovendo a melhora daqueles que se encontram em desajustes e incapazes de obterem melhora de seus estados emocionais e físicos agravados pela somatização.
      Existem vários tipos de terapia que visam o tratamento das pessos que têm problemas em lidar e resolver da melhor maneira as questões existenciais, como a psicoterapia e a psiquiatria, mas a Filosofia Clínica criada por Lúcio Packter no Brasil, que associa os princípios da Filosofia aos da Clínica, propicia um caminho alternativo para as pessoas alcançarem, conservarem ou recuperarem seu equilíbrio diante dos revezes e obstáculos que a vida apresente.
      Baseado na compreensão do ser, o profissional, de acordo com os objetivos da Filosofia Clínica, aplica as técnicas estudadas àquele ser que procurou a terapia em busca da resolução de suas questões existenciais, e, com todo o cuidaddo, beneficia seu cliente, instalando um clima de confiança e instaurando o entendimento entre profissional e partilhante.
    A metodologia própria da Filosofia Clínica, quando aplicada pelo profissional no processo terapêutico é capaz de gerar a conciliação do paciente consigo mesmo, com a vida, a sociedade e o mundo. No momento que o tratament o possibilita a abertura mental e emocional da pessoa, levando-a a fazer suas próprias escolhas, o processo chega, praticamente, ao final.
   É importante ressalvar que as escolhas feitas pelo partilhante, resultado de um trabalho meticuloso empreendido pelo filósofo clínico, são respeitadas pelo terapeuta, mesmo que não haja concordância por parte do profissional, pois o respeito ao paciente é a marca indelével da Filosofia Clínica.
      Inúmeros indivíduos já foram e têm sido beneficiados pela terapia da Filosofia Clínica e a expectativa é que muitos mais serão contemplados por essa inovadora forma de tratamento que, ao amparar e tratar o paciente, promove a substituição de seu eu adoecido por um estado saudável de harmonia e equilíbrio em sua individualidade.
 
REFERÊNCIAS
 
ABBAGNANO,Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
ACHENBACH, Gerd B. Kurzgefabte Beantwortung der Frage: Was ist Philosophische Praxis? Cf. artigo "Praxis, Philosophische" por Odo Marquardt in " Historisches Wortewrbch der Philosofhie", editafdo por Joaquim  Ritter et al., v. VII, Basel 1989, pp 1370 f. Disponível em: , Acesso em: 22 jan. 2004.

AIUB, Mônicam. O início da Clínica: aproximações e Exames Categoriais.
Revista Internacional de Filosofia Clínica, Porto Alegre, v. 1, ip. 11-27, jan./jun. 2005.

AIUB, Mònicam. Para Entender Filosofia Clínica: o apaixonante exercício do filosofar. Rio de Janeiro: WAK, 2008.

ARISTÓTELES. Ética a Nicòmacos. Brasília: UNB, 1985.

JAEGER, Wernerm. Paidéia: a formação do homem grego. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1989

HIPÓCRATES, Conhecer, cuidar, amar: o Juramento e outros textos. Apresentação e notas Jean Salem, São Paulo: Landy, 2002

MARINOF, Lou. Mais Platão, menos prosac. Rio de Janeiro: Record, 2001..

PACKTER, Lúcio. Filosofia Clínica: propedêutica. Florianópolis: Garapuvu, 2001.

----------- Cadernos de Filosofia Clínica. Porto Alegre: Instituto Packter, s/d.

PAULO, Margarida Michele Di; NIEDERAUER, Mariza Zambom. Compêndio de Filosofia Clínica: caso Nina. Rio de Janeiro: Livre Expressão, 20103.

PLATÃO. Diálogos: Teeteto e Crátilo. Belém: Universidade Federal do Pará, 1988.

---------- Fedro. São Paulo: Martin Claret, 2002

PAVESE, Cesare. O ofício de Viverm. Portugal: Relógio d'Água, 2014m.

RUSSELL, Bertrand. La Sabiduria de Occidente. Madrid: Aguilar, 19652,
p.27

SAUTET, Marc. Um café para Sócrates: como a filosofia pode ajudar a compreender o mundo de hoje. Rio de Janeiro: José Olympio, 1999.

SAVIANI, Dermeval. Educação: do senso comum à consciência filosófica. São Paulo: Cortez, 1980. 

DANTAS, Vânia, CLAUSS, Marta. FARADAY, Saurater. Terapia em Filosofia Clínica: percepções e aprendizagem. Fortaleza: Editora Fortaleza, 2044.
 
Roberto Gonçalves
Filósofo



    
 




 
                          
RG
Enviado por RG em 01/04/2015
Alterado em 30/11/2017


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