Roberto Gonçalves

"Tudo vale a pena quando a alma não é pequena"

Textos


Carmo do Rio Claro

Meu avô foi tropeiro
O meu pai foi andarilho
E eu pito o meu tabaco 
Deitado na palha de milho
O meu amor foi primeiro
Teu amor ficou comigo

Diziam os velhos antigos
Amor sempre vai ficar
Amor que fica primeiro 
Amor picando o meu peito
Amor verdadeiro amor
Amor beijando meus lábios
Um amor no cativeiro
E hoje diz o meu filho
No momento derradeiro
Indo das montanhas às abas
No meio de bois e cabras
O amor sempre foi demente
O crente do amor é tolo
Não se elogia um burro
Antes de um atoleiro
Amor nunca foi cigarro
Que se queima num brasiro
E aquelas cinzas que passam
São cinzas eternamente.

Já dizia o meu avô
E minha avó repetia
Amor que fica sozinho
É amor que parte primeiro

O meu avô tropeiro
Viajava o dia inteiro
Pelo caminho da pedra
Pois na pedra tudo fica
E passa o passo a seguir

Passa, passa a lua e madrugada
Passa o verso e passarada
No passeio distraído
Passa, passa o boi passa a boiada
Passa a primeira estrada
Passa o momento de rir

Passa 
Nos olhos do rio Sapucaí
Do cálice consagrado
Do escuro confessionário
O mapa do meu tesouro
Daquele menino que fui

Fui menino e não passei
Tanta fé no coração
E não me deixaram passar

Um menino que subia 
A ladeira todo dia 
E ia dar injeção 
No velho tuberculoso
Deitado no seu colchão
De palha e dessassego

Salve, salve Rainha
Mãe da misericórdia
Salve santa da tísica 
Salve as almas do lugar!

E na sombra do semblante
Uma luz vinha luzir
Azulada lamparina
Bailava na minha sina
Deus há de perdoar

Viste a menina pállida
Que ao baile não foi bailar?
Chorou toda a madrugada
Desmaiada no despaldar
Sapatinho de veludo
Mamãe me mandou ficar
Veio o moço capa e espada
Veio o impeto do dia
O travesseiro de pena
E toda a melancolia
Da janela sempre aberta
Passando a vida acolá

"O amor já é de si 
Um grande arrependimento"

Debruçada no convento
Só não passa o pensamento
Devaneio enfim não passa
E a chama que sempre arde
Ela reza e quer amar
Mas o amor não permite
Porque vive no limite
Abnegado tormento
O lamento não aceita
Não suporta a gelidez

De um vento sublunar
Receita de pão-de-ló
Forno de rosca caseira
Menina despedaçada
Bordando pano de prato
O pé fora do sapato 
O tapete a desfiar

O tapete dos meus sonhos
Teus pés a cariciar.

Passarei, tu passarás
Passaremos para trás
À sombra do tamarindo
Debaixo dos bananais
Passaremos, passareis
Cada um tem a sua vez.

 
  Roberto Gonçalves
Escritor
RG
Enviado por RG em 05/11/2015
Alterado em 21/10/2016
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