Roberto Gonçalves

"Tudo vale a pena quando a alma não é pequena"

Textos


A Motivação na Educação

   I - Motivo e Motivação, em Geral
 
 
   Motivo é qualquer elemento da consciência que concorra para a realização do ato voluntário. Motivação é o processo pelo qual o homem é impelido ou incitado à atividade. (1)
   Há uma divergência muito grande entre os psicológos no que concerne aos fatôres que impelem a pessoa a praticar uma ação. A razão básica desta adversidade de pontos de vista reside na maneira particular de os autores considerarem a natureza humana. Para uns, o homem vive à mercê de fôrças sobrenaturais e, para eles, portanto, não é possível falar-se em "motivação humana". Para outros, são as leis físicas que determinam o comportamento humano. Nesse caso, o único interêsse do psicológo é conhecer as reações dos estímulos físicos no homem e não o mecanismo de sua motivação. Para outros, como Darwin, o homem não passaria de simples animal e a motivação de seus atos não seria mais que a fôrça dos instintos ou dos "drives" (pulsões primárias, como fome, sêde, etc). Outros, como Hobbes e Rousseuau, dizem que o homem é um produto da sociedade. Toda sua motivação deveria ser procurada em fatôres externos, de natureza social (determinismo social). Ainda se devem enumerar os que reduzem o comportamento humano à influência de fôrças instintivas e inconcientes. Estas fôrças, de acôrdo, com eles, determinam o comportamento, que mis é do que a resultante de determinações irracionais. Não sabemos porque agimos desta ou daquela maneira. As razões verdadeiras são irreflexivas. O homem é uma vítima passiva dos fatores de seu inconsciente. (2)
   Há, finalmente, a posição dos que aceitam a pessoa humana como possuidora de uma natureza própria, diferente da dos animais e capaz de autodeterminar-se. Os defensores desta posição, embora admitem a influência de fatôres biológicos, sociais, inconcientes e sobrenaturais, insistem na verdadeira racionalidade do homem, que assim escapa no determinismo totalo e possui uma fonte de energia, de motivação própria (3) - Nuttin.

 
II - MOTIVAÇÃO E APRENDIZAGEM
 
   Sob o ponto de vista pedagógico, motivar significa fornecer um motivo para a aprendizagem. "A motivação, diz Willian Kelly, consiste numa indução de motivos que vitalizará a aprendizagem e o comportamento. Consiste no estímulo à aplicação dos alunos dando sentido e razão às tarefas escolares" (4). Para Aguayo, a motivação "é uma conexão entre o trabalho escolar e a experência, os interêsses, os valores e as aspirações do aluno". (5). Segundo ele, o trabalho escolar está bem motivado quando satisfaz uma necesidade do educando, quando visa a fim que ele deseja atingir ou dá alguma capacidade que ele deseja possuir (6).
   Joseph Nuttin, em sua "Teoria dinâmica da personalidade normal", explica bem como o comportamento humano, sobretudo no que tange ao desenvolvimento da personalidade (objeto primário de todo processo educacional), é dirigido pela "motivação". Para ele, "as necessidades humanas" penetram toda a complexidade da vida em seus diferentes níveis. Enquanto ser espiritual, do mesmo modo que enquanto organismo bioquímico, o homem tem necessidades. Essas diferentes formas de necessidades se interpenetram; e é sob a forma de motivos complexos que elas desencadiam e dirigem o comportamento. Eles podem fazê-lo de modo "esontâneo" ou de modo "refletido". Nesse último caso, a necessidade orienta o comportamento em função de uma atitude pessoal ou voluntária, tomada pelo EGO espiritual em face de um valor" (7)
   Em face do que vimos, conclímos que a criança só trabalha espontâneamente quando impulsionada por uma necessidade ou por um interêsse. Logo, é necessário motivar o trabalho escolar, estabelecer uma relação entre o mesmo e o interêsse da criança. Como muito bem resume Teobaldo Miranda Santos (8), "motivvação é em suma o aproveitamento do interêsse como motivo da aprendizagem. É o interêsse vitalizado, posto a serviço da atividade educativa da escola".
   De acôrdo com Robert S.Ellis (8), a importância dos interêsses em relação à aprendizagem baseia-se em que a atividade mental é dominada por interêsses. Pensamos nas coisas que nos interessam e, ao contrário, não prestamos atenção às que não nos interessam, donde a sua pronta retirada de nossa conscência. E, entretanto, necessário reconhecer que temos interêsses são só diretos, como indiretos. O interêsse pelo alimento é direto, o interêsse pelo dinheiro, indireto, e assim por diante. A concentração, diz Ellis (9), prende-se instintivamente ao interêsse. O estudante incapaz de concentrar-se em suas tarefas escolares está, de ordinário, mais interessado em outro assunto. O bom êxito da aprendizagem depende muito do grau de concentração. 

 
CONSIDERAÇÕS PEDAGÓGICAS
 
    A motivação é um dos recursos mais eficientes da prática do ensino. Mais importante mesmo que o próprio método pedagógico. Para que a motivação seja bem sucedida, porém, é aconselhável que o trabalho escolar parta, sempre que possivel, de uma situação problemática, isto é, de uma experência ou dificuldade que provoque a curiosidade e a atenção e estimule a atividade mental do aluno.
   A única motivação realmente autêntica é a motivação
positiva –  a que leva o aluno a aprender ou estudar de maneira espontânea e natural, já pela atração exercida pela matéria, já pelo reconhecimento do valor ou da utilidade da lição. A motivação negativa, baseada em ameaças, castigos, etc., é falsa e prejudicial.
   Nouly dedica todo um magnífico capítulode"Psicologia Educacional" ao estudo pormenorizado da "Motivação" (10). Deste, chama-nos especial atenção a longa parte dedicada aos "Incentivos", em que analisam o papel da "recompensa e punição", "êxito e fracaso", "elogio e censura", "competição", e sobretudo o "papel do professor na motivação", concluindo finalmente que "O PROFESSOR  É, EM ÚLTIMA ANÁLISE, A CHAVE PARA A MOTIVAÇÃO NA SALA DE AULA".
   Para issso, o professor deve, não apenas comprender os alunos e as maneiras de motivá-los, mas também representar o tipo de pessoa que elas possam aceitar e por quem possam ser inspiradas. Deve ter sensibilidade às necessidades dos alunos e imaginação para estimular os seus motivos na direção dos objetivos desejáveis. Deve dar apôio aos alunos frustrados pelas exigências da escola, mudar o trabalho do aluno aborrecido, etc. Precisa manter um bom equilíbrio entre diculdade e facilidade, de forma que o aluno não se aborreça nem fique frustrado. E nunca se esquecer de que o fato de a classe ser um grupo social tem uma importância fundamental para a motivação. O refôrço social, diz Mouly (10), é o maior alidado ou o maior inimigo do pofessor para a motivação de seus alunos. 
 
CONCLUSÃO PESSOAL

   Na conclusão de Mouly, citada acima, vimos que "o professor é, em última análise, a chave para a motivação na sala de aula". Não nos devemos esquecer, porém, que a sala de aula não esgota todda a amplitude da tarefa pedagógica. Nem a escola, mesmo. E nem são apenas as tarefas escolares e sua aprendizagem que circunscrevem os limites da ação educativa. O aluno deve ser considerado em sua totalidade, em sua integralidade de pessoa humana. Nã apenas um conjunto de necessides bioquímica, físicas ou sociais que devam ser satisfeitas. Mas um ser que age, não só espontâneamente, premido por suas necessidades naturais, mas impusiondo também por suas motivações de ordem reflexiva, em face de valores.
   E é justamente na construção destes valôres, no torná-los bastante fortes e desejáveis, bastante claros e precisos, que está a mais nobre e a mais difícilo tarefa do professor. O professor não motiva para a escola, nem apenas para a sociedade: acorda motivações para a vida de uma pessoa humana. 

 
Roberto Gonçalves
Filósofo

NOTAS

(1) Miranda Santos, Theobaldo - "Noções de Psicologia da Aprendizagem", pág. 106
(2) A.S.S.R. - "Motivação0", in Barsa - 9 - pág. 344
(3) Nuttin, Joseph - "Psicoanálise e Personalidade", pág.290
(4) Kelly, William - "Psicologia Educacional". pág. 106
(5) Aguayo, A.M. - "Pedagogia Científica", pág. 48
(6) Id.Ibid., pág. 49
(7) Nuttin, Joseph - "Psicanálise e Personalidade", pág. 290
(8) Ellis, Robert S. - "Psicologia Educacional", pág. 69
(9) Id. Ibid. pág. 50
(10) Mouly, George J. - "Psicologia Educacional", pág. 255 a 277

 
BIBLIOGRAFIA

- Aguayo, A.M. - "Pedagogia Científica - E. C.E.Nac. S.Paulo, 1958
- A.S.S.R. - "Motivação - Enc. Barsa, 9 vol.
- Blair, Glen M. e outros - Psicologia Educacinal" - E.C.Nac. - Sao Paulo, 1967
- Elliz, Robert S. - "Psicologia Educacional" - Ed. E.Nac. São Paulo, 1967
- Ferraz, João de Souza - "Psicologia Humana" - E. Saraivva - São Paulo, 1957
- Kelly, William - "Psicologia Educacional" - Ed. Agir - Rio de Janeiro, 1957
- Moouly, George J. - "Psicologia Educacional" - E. Pioneira - São Paulo, 1966
- Nuttin, Joseph - "Psicanálise e Personalidade". E. Agir, Rio de Janeiro, 1955.
RG
Enviado por RG em 09/12/2015
Alterado em 09/07/2016
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