Roberto Gonçalves

"Tudo vale a pena quando a alma não é pequena"

Textos


Padre Orlando Vilela

Um dos grandes vultos da história apinopolense completaria, se vivo fosse, 100 anos de idade em 2014. Padre Orlando Oliveira Oliveira Vilela nasceu em Alpinópolis no dia 22 de março de 1914 e foi, além de sacerdote, um renomado professor universitário e escritor. Homem de espírito rebelde.

Em DUELO DE UM ANJO E DE UM CÂO, Editora Itatiaia Ltda, Belo Horizonte,1973, entre outras preciosidades, ele escreveu:

"Os meus mentores espirituais substituiram, pertinaz e impiedosamente, minha religião-de-família da pior espécie: uma religião excessivamente sobrenaturalista e artificial, por um lado, e, por outro lado, extremamente discursiva e emporcalhada de silogismos. E mais: uma religião:

a) Dogmatista. Dona absoluta da verdade. Esta, com efeito, era uma coisa dada — e metida numa gaiola de palavras abstratas e complicadas — e jamais uma coisa que se pudesse procurar, investigar. Às vezes, uma simples e inocente pergunta tornava o aguente suspeito de heresia.

b) Moralista. Mais preocupada com o acidental do que com o essencial. Perdida em detalhes. Desgastada com nugacidades difíceis: "difficeles rugae" (Marcial). Religião do pode, não pode: pode ou não pode, isto é, é pecado ou não é pecado rezar o breviário na privada?

c) Apologeticista. Mais de defesa e ataque do que de apostolado  (uma espécie de galo de briga); mais preocupada com searas alheias do que com a própria. Bastava, por exemplo, faltar doutrina ou assunto — coisa, aliás, muito comum — para o pregador logo pegar Lutero pela orelha. 


d) Jurisdicista. Mais voltada para leis e regulamentos do que para a graça divina: mais canonista de que evangélica.

e) Ritualista. Mais do parecer do que do ser: mais de atitudes e gestos do que da alma e do coração.

f) Individualista e subjetivista. Religião em que cada um vivida fechado dentro de si mesmo, enclausurado na imanência de seu próprio eu e, por isso mesmo, preocupado quase só com o que se costumava chamar  "a salvação da própria alma".

g) Casuística. Abarrotada de fórmulas. formulários, rótulos,,frases feitas e, sobretudo, fomentadora de escrúpulos inúteis. 

h) Minuciosa. Excessivamente preocupada com números: assisti a dezoito missas, comunguei onze vezes, rezei quarenta terços, pratiquei trinta e cinco mortificações, cometi sete pecados de mau pensamento. 

i) Devocionista. Mais santeira do que sacramental. Mais de orações vocais do que de vida interior. Mais de espiritualidades fradesca do que da verdadeira espiritualidade cristã.

j) Proselitista. Mais preocupada em arranjar clientela devota, rebanho passivo e dócil, do que em dar testemunho da verdade e da vida, da justiça e da caridade

l) Mórbida. Impreganada de um odor de túmulo. Conselho que um (considerado) santo diretor espiritual costuma dar: "Quando urinar, o seminarista não deve pegar no membro com afago". Outro conselho de Sua Santidade: " A Prima deve seer a oração da manhã do padre. Nada há de melhor.. Precisamos, por isso, aprender a subornar a Prima... Ah!  como vocês seminaristas são maliciosos!... É difícil a gente pregar para vocês: Até desanima!
(Hoje estou em condições de perguntar: onde estaria realmente  a malícia: em nossos corações deserdados de primas ou na exclamação de Sua Santidade?

m) Anti-feminista. "Quae cum sororibus meis sunt, sorores meae non sunt" — "As moças que convivem com minhas irmãs não são minhas irmãs". "Mulher é fogo; queima, se a gente de aproxima dela" . "Pior do que mulher  só mesmo o feio hábito de murmurar dos superiores. "Nula fere causa est, in qua non femina litem moverit" (Juvenal) — " A mulher está na origem de todas as desgraças do homem". Esses e outros ditos de igual ou análogo valor teológico se contavam entre os princiais lugares comuns  que povoavam a cabeça de nossos padres-mestres.
A Santidade a que há pouco me referi era mais minuciosa. "Quando vocês se ordenarem, meus caros e jovens seminaristas, e as moças se inclinarem para tomar a benção, beijar as sagradas mãos de vocês, não olhem para baixo não: isso é muito perigoso, pois lá se escondem dois irriquietos passarinhos, prontos para deixar a gaiola".

n) Maniqueista. Religião de um incontido e voraz desprezo do corpo. Outra missão este não tinha a não ser a de se opor à alma e, consequentemente, puxar para baixo e para o mal. E, enfim:

o) Farisáica. "Decorativamente cristã e não vital ou evangelicamente cristã" (Maritain). Vivia-se coado mosquitos e engolindo camelos. 

Em suma: uma religião sem dimensão humana, sem base sadia de humanismo (humanismo, naquele sítio, consistia apenas em saber grego e latim), sem o sentido da Justiça e, sobretudo, sem a seiva do Amor — a não ser o amor por todos os lugares comuns da teologia pós-tridentina, da moral doentiamente casuistica dos últimos séculos (particularmente a partir de Afonso de Ligório) e da espiritualidade sulpiciana — imortalizada no Guia do Seminarista e do Jovem Padre, do Padre Dubois — livro de cabeceira de todos os mentores espirituais do Seminário. Diante do Padre Dubois, Cristo era fichinha. 

Daí, decerto,, a frieza, a insensibilidade e o caradurismo com que muitos de seus professores, muitos de seus prefeitos de disciplina e muitos de seus regentes de classe impunham — a crianças de doze, treze e quatorze anos, ou pouco mais do que isso —  castigos físicos ou morais doídos, humilhantes e degradantes. 
Com efeito, vezes sem conta, entre outras coisas mais, apanhei e vi colegas meus apanharem, levei tapas e pescoções e vi colegas meus levarem tapas e pescoções, levei ponta-pés no trazeiro e vi colegas meus levarem ponta-pés no traseiro, levei murros no pé do ouvido e vi colegas meus levarem murros no pé do ouvido, passei dias incomunicáveis e vi colegas meus passarem dias incomunicáveis, levei reguadas na cabeça e vi colegas meus levarem reguadas na cabeça, levei bolos e vi colegas meus levarem bolos, fiquei de joelhos até altas horas da noite e vi colegas meus ficarem de joelhos até altas horas da noite.
(Este último castigo tinha certa vantagem sobre os demais: adiar a luta da gente contra os percevejos, de que nossas camas em geral viviam cheias. "Para alguma coisa serve a desgraça". — "A quelque chose malheur est bon").

 
Padre Orlando Oliveira Vilela
Escritor, Professor, Conferencista
(5-4-73)

 
(Eu tive a honra de ter sido seu aluno na Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG) e, nascemos próximos um do outro, ele, em Alpinópolis, eu, em Carmo do Rio Claro, Sul de Minas Gerais.
 
Padre Orlando Oliveira Vilela
Enviado por RG em 08/06/2016
Alterado em 08/06/2016


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